Os ataques a sistemas de água devem ser entendidos como ataques a sistemas de saúde, segundo especialistas que escrevem no The BMJ. O argumento é direto: conflitos raramente começam apenas por causa da escassez de água, mas a guerra danifica cada vez mais a infraestrutura da qual as pessoas dependem para obter água potável, saneamento, prevenção de doenças e recuperação.

Os autores, incluindo Rohit Ramchandani, do United Nations University Institute for Water, Environment and Health, dizem que esses danos podem criar um ciclo em que serviços de água frágeis pioram as condições de saúde pública e aprofundam a instabilidade ao redor de um conflito. Eles defendem que ataques a sistemas de água sejam contabilizados, contestados e enfrentados como ameaças à saúde.

A escassez não explica sozinha um conflito

O artigo alerta contra tratar a escassez de água como uma explicação isolada para a guerra. A água pode agravar tensões existentes, escrevem os autores, mas raramente é a única causa. Seus exemplos mostram o motivo.

A seca na Síria entre 2007 e 2009 é frequentemente descrita como um gatilho para a revolta de 2011. No entanto, os autores observam que a agricultura se recuperou fortemente em 2010, enquanto a migração anterior à guerra foi em grande parte interna, temporária e adaptativa. Na região do lago Chade, o lago encolheu até 90% entre as décadas de 1960 e 2000, mas a violência aumentou depois de 2010, quando os níveis da água estavam se estabilizando.

A questão mais importante, argumentam, é como os custos do estresse hídrico são distribuídos. Quando os sistemas de água doce falham e as comunidades menos poderosas arcam com o peso do ajuste, as queixas podem se intensificar. Essa análise coloca governança, desigualdade e destruição deliberada de infraestrutura ao lado das condições ambientais.

Danos aos serviços de água rapidamente se tornam uma emergência de saúde

A infraestrutura hídrica está estreitamente ligada à saúde porque sua falha afeta muito mais do que o acesso à água potável. Os danos podem comprometer sistemas de tratamento, saneamento, higiene e a capacidade de clínicas e comunidades de prevenir doenças. Os exemplos dos autores mostram com que rapidez essas consequências podem surgir.

No Sudão, em maio de 2025, danos a uma usina de energia cortaram a eletricidade das estações de tratamento de água de Cartum. A interrupção foi seguida por quase 500 casos de cólera em um único dia, segundo o artigo. Em Gaza, cerca de 57% da infraestrutura hídrica havia sido danificada ou destruída até o fim de janeiro de 2024. A Organização Mundial da Saúde registrou 136.400 casos de diarreia nos três meses após a escalada do conflito.

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Crédito: CC0 Public Domain

Esses números não significam que cada caso de doença possa ser atribuído a uma instalação danificada específica. Eles mostram por que os autores querem que a infraestrutura hídrica seja tratada como parte do sistema de saúde durante conflitos, e não como um problema secundário de serviços públicos a ser resolvido apenas depois que os combates terminarem.

Um registro crescente de incidentes violentos

O artigo aponta o registro do Pacific Institute de 420 eventos violentos relacionados à água em 2024, um aumento de 78% em relação a 2022. Sessenta e um por cento envolveram ataques diretos à infraestrutura hídrica.

A Ucrânia ilustra a escala da interrupção que pode seguir-se a uma invasão: meses após a invasão em grande escala da Rússia, milhões de pessoas tiveram dificuldade para obter água potável diariamente. Os autores também citam incidentes relatados no golfo Pérsico ao longo do ano, incluindo um ataque dos EUA a uma usina iraniana de dessalinização que cortou a água de 30 aldeias na ilha de Qeshm, um ataque de drone iraniano que danificou uma usina no Bahrein e o suposto ataque contra dois reservatórios em Sirik que abasteciam 20 mil residências.

Os exemplos apontam para uma vulnerabilidade comum. Os sistemas de água dependem de ativos físicos como estações de tratamento, reservatórios, instalações de dessalinização e fornecimento de eletricidade. Um ataque a uma parte dessa rede pode interromper serviços muito além do local afetado.

Preparar-se para ataques à água como ataques à saúde

A proposta dos especialistas não é tratar o estresse hídrico em si como um indicador automático de guerra. Em vez disso, eles defendem uma contabilização mais clara dos efeitos sobre a saúde pública quando os serviços de água são deliberadamente atacados ou degradados durante conflitos.

Essa abordagem pode mudar a forma como instituições humanitárias e de saúde avaliam riscos. Proteger a capacidade de tratamento, a eletricidade de reserva e o acesso à água segura não é apenas uma questão de infraestrutura; faz parte da limitação de surtos e da proteção de civis. Registrar os ataques de forma consistente também pode tornar suas consequências mais visíveis para tomadores de decisão e responsáveis por documentar violações.

O alerta central do artigo é que a recuperação se torna mais difícil quando a infraestrutura hídrica entra em colapso. Uma população sem água confiável fica mais exposta a doenças, enquanto serviços de saúde enfraquecidos têm menos capacidade de resposta. Romper esse ciclo exige tratar os sistemas de água como infraestrutura essencial de saúde antes, durante e depois dos conflitos.

Pontos principais

  • O Pacific Institute registrou 420 eventos violentos relacionados à água em 2024, com 61% envolvendo ataques diretos à infraestrutura.
  • Os autores afirmam que a escassez de água, sozinha, raramente explica conflitos; a exposição desigual aos seus custos pode aprofundar as queixas.
  • A interrupção de sistemas de tratamento e energia pode contribuir rapidamente para surtos de doenças.
  • O artigo do The BMJ pede que ataques a sistemas de água sejam documentados e enfrentados como ataques à saúde.

Este artigo baseia-se em reportagem da Medical Xpress. Leia o artigo original.

Originally published on medicalxpress.com