Pesquisadores da University of Waterloo desenvolveram um gel rico em água projetado para oferecer suporte temporário enquanto tecidos moles danificados se recuperam. O material, um hidrogel inspirado na capacidade dos pepinos-do-mar de alterar a rigidez de seus corpos, foi testado em ratos com tendões lesionados e esteve associado a uma cicatrização melhor do que a reparação feita apenas com pontos.

O trabalho aponta para uma possível nova abordagem para lesões nas quais o tecido em recuperação precisa de suporte, mas um implante permanente pode não ser desejável. O gel se degrada gradualmente e é absorvido pelo organismo, em vez de permanecer indefinidamente. O artigo que descreve o trabalho, intitulado “Bioinspired Hydrogels with Broadly Programmable Mechanics for Soft-Tissue Interfaces”, foi publicado em Advanced Functional Materials.

Um suporte projetado para diferentes tecidos

Hidrogéis são materiais com alto teor de água. Neste caso, o material foi concebido para atuar como uma estrutura temporária ao redor de uma lesão, apoiando o crescimento de novos tecidos enquanto ele próprio se degrada. A equipe de Waterloo afirma que seu design pode ser ajustado para tornar o gel mais macio ou mais rígido, uma propriedade útil porque os tecidos do corpo não têm as mesmas exigências mecânicas.

Gel inspirado no pepino-do-mar pode ajudar a reparar tecidos danificados em humanos
Pesquisadores de engenharia da University of Waterloo criaram este gel úmido e flexível para ajudar a cicatrizar lesões em tecidos moles. Crédito: University of Waterloo

Um material usado próximo ao cérebro, por exemplo, precisaria se comportar de maneira diferente de um colocado ao redor de um tendão. O líder do projeto, Dr. Yimin Wu, professor de engenharia mecânica em Waterloo, descreveu essa distinção como central para o trabalho: um único suporte não é necessariamente adequado para todos os reparos de tecidos moles. A mecânica programável do hidrogel pretende permitir que os pesquisadores adaptem o suporte ao local da lesão, em vez de tratar os tecidos moles como uma categoria uniforme.

A inspiração biológica vem dos pepinos-do-mar, animais conhecidos por mudar a rigidez de seus corpos. Os pesquisadores adaptaram esse conceito amplo a um material sintético, úmido e flexível para interfaces de tecidos moles. O resultado não é apresentado como um tratamento pronto para pessoas, mas como uma plataforma que poderia ser desenvolvida para tendões e outros tecidos moles.

Resultados pré-clínicos em tendões

Após quase quatro anos de pesquisa, uma equipe internacional avaliou o gel em um estudo pré-clínico com ratos. Segundo os pesquisadores, ratos com tendões lesionados que receberam o hidrogel apresentaram melhor cicatrização do que os animais cujos tendões foram reparados apenas com pontos.

A equipe informou que o gel apoiou o crescimento de novos tecidos mais organizados à medida que a cicatrização avançava. Também observou melhorias nos tendões reparados em comparação com o grupo tratado somente com pontos. Essas descobertas são animadoras porque o reparo de um tendão depende de mais do que simplesmente reconectar o tecido: a área reparada precisa recuperar uma estrutura funcional enquanto enfrenta estresse mecânico repetido.

Gel inspirado no pepino-do-mar pode ajudar a reparar tecidos danificados em humanos
O Dr. Youchao Teng (à esquerda) e o Dr. Yimin Wu exibem parte do novo material em gel que desenvolveram para ajudar a cicatrizar lesões em tecidos moles. Crédito: University of Waterloo

O gel se degradou ao longo de cerca de oito semanas no estudo relatado. Esse desaparecimento programado é uma parte importante do design. O objetivo é que o suporte auxilie durante o período de cicatrização e depois seja absorvido, reduzindo a possibilidade de deixar material permanente no local do reparo.

Promissor, mas ainda há um caminho considerável

Os resultados permanecem pré-clínicos. Resultados em ratos não estabelecem que um material será seguro ou eficaz em pessoas, e o estudo não constitui evidência de um tratamento clínico. Serão necessários mais estudos para determinar como o material se comporta em modelos adicionais, com que confiabilidade suas propriedades mecânicas podem ser ajustadas para usos específicos e se o processo de degradação e a resposta de cicatrização são adequados em humanos.

Ainda assim, o estudo destaca uma direção de design para a medicina regenerativa: materiais temporários que combinam suporte estrutural com a capacidade de se adaptar à mecânica do tecido reparado. Se essa abordagem avançar além dos experimentos iniciais com tendões, poderá oferecer aos médicos outra opção entre a sutura simples e materiais implantados mais permanentes.

Por enquanto, o feito é uma demonstração pré-clínica de um suporte biodegradável cujas propriedades podem variar e cujo uso esteve associado a uma cicatrização de tendões mais organizada no estudo animal relatado. A próxima questão é saber se a mesma combinação de suporte temporário e rigidez ajustável pode atender às exigências mais rigorosas do reparo de tecidos moles humanos.

Este artigo é baseado em uma reportagem da Phys.org. Leia o artigo original.

Originally published on phys.org