A distância entre a preocupação com os preços e o desperdício de alimentos

Os americanos podem estar preocupados com o aumento das contas do supermercado, mas essa preocupação não se transforma automaticamente em comprar alimentos de aparência incomum, próximos da data indicada no rótulo ou que estejam fora das normas convencionais do varejo. Uma nova pesquisa discutida em The Conversation afirma que as avaliações dos consumidores sobre a qualidade são centrais para essa contradição.

As consequências vão além dos orçamentos domésticos. Estimativas do governo dos EUA citadas no relatório colocam o desperdício total de alimentos gerado por consumidores, varejistas e produtores entre 30% e 40% do abastecimento alimentar. A Organização das Nações Unidas estima que o desperdício de alimentos responda por 8% a 10% das emissões globais de carbono. Assim, alimentos seguros para o consumo podem ser perdidos não apenas como recurso financeiro, mas também como questão climática.

O artigo se concentra nos alimentos “fora do padrão”: produtos com formatos irregulares, itens que os varejistas podem retirar antes do esperado pelos consumidores e excedentes como iogurte. Um mercado crescente surgiu para resgatar e revender esse tipo de alimento, incluindo serviços que comercializam produtos “feios” e iniciativas que reaproveitam subprodutos alimentares. Mas a disponibilidade e o preço mais baixo não necessariamente vencem a hesitação dos consumidores.

Sinais de qualidade superam um simples desconto

A principal conclusão da pesquisa é que muitos consumidores interpretam aparência e preço como sinais de qualidade. Quando produtos esteticamente imperfeitos recebem grandes descontos, os compradores podem deduzir que o preço menor significa que o produto é inferior. Isso pode levá-los a escolher uma fruta ou verdura de aparência mais convencional, mesmo quando a alternativa com desconto é perfeitamente boa.

A imagem mostra um tomate, um pimentão, um morango, um limão, uma raiz de gengibre e uma cenoura deformados.
As empresas que vendem produtos “fora do padrão” viram crescer o interesse dos consumidores nos últimos anos. Crédito: Jintao Zhang, CC BY

Essa constatação complica uma suposição comum nas campanhas contra o desperdício de alimentos: a de que um desconto forte ou um benefício climático bastará para mudar o comportamento de compra. Segundo a pesquisa resumida no relatório, essas mensagens podem ser secundárias se os clientes continuarem sem confiar na qualidade dos alimentos.

O resultado cria um desafio prático de marketing. As empresas que tentam desviar alimentos do desperdício não estão simplesmente vendendo itens mais baratos; estão tentando mudar o significado que os consumidores atribuem a imperfeições visuais, excedentes e indicações de data. Uma cenoura torta ou um produto de formato irregular pode ser julgado antes que o comprador tenha a chance de avaliar sua utilidade, sabor ou segurança.

A rotulagem pode mudar a decisão

A resposta proposta é uma rotulagem mais inteligente. A pesquisa indica que os consumidores têm mais propensão a comprar produtos deformados quando recebem a garantia de que sua qualidade é boa. Essa abordagem trata diretamente da preocupação que parece orientar muitas decisões.

Para varejistas e empresas de recuperação de alimentos, a implicação é que a linguagem climática e as reduções de preço não devem agir sozinhas. Mensagens que esclareçam a qualidade podem tornar os outros incentivos mais eficazes. Em vez de apresentar um produto principalmente como barato, ambientalmente preferível ou indesejado, o rótulo pode sinalizar primeiro que ele continua sendo uma escolha alimentar válida.

Isso é especialmente relevante enquanto as empresas buscam normalizar produtos que antes tinham pouco espaço no varejo alimentar convencional. O artigo observa que as empresas que vendem produtos fora do padrão atraíram um interesse crescente dos consumidores. Ainda assim, esse interesse não elimina o viés subjacente a favor de alimentos visualmente padronizados.

Um logotipo de alimentos reaproveitados informa que foi criado em 2019 e incentiva os consumidores a “parar o desperdício de alimentos”.
Pesquisas constataram que os consumidores respondem melhor a logotipos que fornecem informação e incentivos. Crédito: Jintao Zhang, CC BY

Uma perspectiva do comportamento do consumidor sobre o desperdício

A análise reformula o desperdício de alimentos como um problema parcialmente ligado à interpretação dos consumidores. Ela não sugere que os compradores sejam os únicos responsáveis; a estimativa citada abrange famílias, varejistas e produtores. Em vez disso, destaca como a apresentação do produto influencia uma parte de um sistema maior que descarta alimentos aproveitáveis.

Essa perspectiva ajuda a explicar por que a preocupação com o custo das compras coexiste com o desperdício contínuo. Um consumidor pode querer economizar e, ao mesmo tempo, ter a garantia de que a compra é fresca e confiável. Se o desconto for interpretado como evidência de baixa qualidade, o incentivo à economia pode perder.

Para organizações que tentam reduzir o desperdício, o estudo oferece uma lição específica e prática: estabeleça a qualidade primeiro. Rótulos melhores não podem resolver todas as causas logísticas, comerciais ou domésticas da perda de alimentos, mas podem ajudar a superar uma barreira recorrente à aceitação de alimentos esteticamente imperfeitos e excedentes.

Nesse sentido, a pesquisa não pede que os consumidores escolham entre valor e qualidade. Ela sugere que reduzir o desperdício pode depender de demonstrar que os dois podem coexistir.

Este artigo baseia-se em uma reportagem da Phys.org. Leia o artigo original.

Originally published on phys.org