A resposta da Europa ao choque energético já aparece na conta de importações

Os países europeus evitaram cerca de €72 bilhões em importações de combustíveis fósseis entre 2022 e 2025, à medida que a implantação de energia eólica e solar se acelerou após a invasão da Ucrânia pela Rússia, segundo uma análise citada na cobertura da 75ª edição do Statistical Review of World Energy.

As economias relatadas decorrem de uma mudança rápida na matriz elétrica da região. Juntas, a energia eólica e a solar forneceram 30% da eletricidade da União Europeia em 2025, ante 19% em 2021. No mesmo período, a geração a gás caiu 15% e a geração a carvão recuou 38%.

Essa mudança importa além das metas climáticas. Ela sugere que a capacidade renovável já não é apenas um projeto de descarbonização de longo prazo. No caso europeu, também funcionou como uma resposta de segurança energética de curto prazo a um choque geopolítico que expôs o custo da dependência de combustíveis fósseis importados.

De estratégia climática a proteção estratégica

O período após o início de 2022 obrigou a Europa a avançar mais rapidamente em questões que já vinha debatendo havia anos: como reduzir a exposição a combustíveis importados, como estabilizar os preços da eletricidade e como construir um sistema elétrico mais resiliente. Os números mais recentes indicam que a resposta, ao menos em parte, veio da expansão mais rápida da geração renovável doméstica.

O relatório citado afirma que ambientes regulatórios favoráveis, incluindo o marco REPowerEU da União Europeia, ajudaram a acelerar essa expansão. Em 2025, a geração eólica e solar atingiu 852 terawatts-hora. Esse total superou a geração combinada de carvão, gás e petróleo, que ficou em 760 terawatts-hora.

Esse cruzamento é o desenvolvimento central. Ele significa que a eólica e a solar deixaram de ser uma camada suplementar sobre um sistema intensivo em fósseis. Passaram a ocupar um papel grande o suficiente para deslocar volumes significativos de geração convencional em todo o bloco.

Na prática, isso se traduziu em menor necessidade de combustíveis importados, especialmente gás. A análise citada no artigo diz que a maior parte dos €72 bilhões em importações evitadas veio de menores compras de gás. Alemanha, Espanha e Itália foram identificadas como os países com as maiores economias.

Por que o número do gás importa mais

O gás ocupa um lugar particularmente sensível no sistema energético europeu porque afeta, ao mesmo tempo, geração de eletricidade, indústria, aquecimento e geopolítica. Quando os preços do gás disparam ou o fornecimento se torna incerto, os efeitos são amplos e imediatos. Evitar importações de gás, portanto, tem um impacto desproporcional em comparação com simplesmente reduzir um fluxo de combustível menor ou menos exposto estrategicamente.

Os números sugerem que a expansão renovável fez mais do que melhorar o desempenho de emissões. Ela também ajudou a proteger a região de gastos adicionais em um período em que a energia fóssil importada carregava riscos econômicos e políticos. Isso torna o salto renovável um estudo de caso sobre como transições do sistema elétrico podem gerar benefícios de segurança e acessibilidade ao mesmo tempo.

Há também uma implicação sistêmica importante. Cada ponto percentual da demanda por eletricidade atendido por eólica e solar domésticas reduz a quantidade de combustível que precisa ser comprada, transportada e queimada em outra parte do sistema. Em uma região tão dependente de importações quanto a Europa, o valor acumulado dessa substituição cresce rapidamente, especialmente ao longo de vários anos de estresse elevado no mercado de combustíveis.

Uma mudança estrutural, não apenas uma reação temporária

O elemento mais significativo dos dados não é apenas o número de economia em destaque. É a velocidade com que a matriz elétrica mudou entre 2021 e 2025. Levar a eólica e a solar de 19% para 30% da oferta em quatro anos não é um ajuste marginal. Isso indica uma reponderação estrutural do parque gerador.

Carvão e gás perderam espaço no mesmo período, com queda mais acentuada do carvão. Esse padrão aponta para um duplo efeito de deslocamento: as renováveis expulsaram a geração a carvão, a mais emissora, e também reduziram a dependência de usinas a gás, que muitas vezes definem os preços da eletricidade e vinculam os mercados elétricos a importações voláteis de combustível.

Para os formuladores de políticas, isso reforça o argumento de tratar a expansão renovável e a modernização da rede como infraestrutura estratégica, e não como política climática setorial. Quanto mais capacidade renovável puder ser conectada, equilibrada e integrada, mais a Europa poderá se proteger de futuros choques de importação.

O que os números dizem e não dizem

As economias relatadas não significam que a Europa resolveu seu problema de segurança energética. A região ainda depende de combustíveis importados, e o próprio artigo sustenta que mais capacidade eólica e solar é necessária. Mas os dados mostram que a implantação feita desde 2022 já teve um efeito macroeconômico mensurável.

Essa distinção importa. Os debates sobre transição energética muitas vezes tratam os benefícios como distantes, difusos ou difíceis de quantificar. Neste caso, a cifra de importações evitadas oferece uma medida concreta ligada a um período definido e a uma resposta específica de política e mercado.

Ela também reformula a proposta de valor da energia renovável. O caso a favor de uma implantação mais rápida não é mais apenas uma geração mais limpa no longo prazo. É também menor exposição a fornecedores externos, menos gasto com importações e uma base elétrica doméstica mais forte no presente.

O que vem a seguir para a Europa

Se a Europa quiser ampliar essa tendência, a próxima fase provavelmente dependerá não só de adicionar mais turbinas eólicas e painéis solares, mas também dos sistemas que os viabilizam. Licenciamento mais rápido, redes mais robustas, armazenamento e políticas que mantenham novos projetos avançando da aprovação à conexão determinarão se a aceleração de 2022-2025 se tornará uma trajetória duradoura.

Os números mais recentes sugerem que a primeira onda dessa aceleração já mudou o equilíbrio do sistema elétrico. Em 2025, a eólica e a solar geraram mais eletricidade do que carvão, gás e petróleo juntos, ao mesmo tempo em que ajudaram a evitar dezenas de bilhões de euros em importações de combustíveis fósseis ao longo de quatro anos.

Para uma região forçada a repensar a segurança energética sob pressão, isso é mais do que um marco simbólico. É evidência de que a implantação renovável em escala industrial pode alterar a exposição comercial, remodelar a matriz elétrica e produzir ganhos econômicos estratégicos em um horizonte de anos, não de décadas.

Este artigo é baseado em reportagem da CleanTechnica. Leia o artigo original.

Originally published on cleantechnica.com