O otimismo com IA está colidindo com sinais clássicos de alerta do mercado

A J.P. Morgan está alertando que a operação em torno da IA pode estar mostrando sintomas de excesso, com ganhos de mercado cada vez mais concentrados em um pequeno grupo de empresas e atividade especulativa crescendo em torno dos semicondutores. As preocupações do banco, conforme relatado pelo The Decoder, não equivalem a uma previsão de colapso imediato. Mas sugerem que a história de crescimento mais celebrada do mercado está se tornando mais frágil à medida que mais capital se aglomera nos mesmos nomes, instrumentos e premissas.

O alerta vem depois de vários anos em que a IA generativa remodelou gastos de capital, roadmaps de produtos e narrativas de ações em todo o setor de tecnologia. Desde o lançamento do ChatGPT em 2022, o entusiasmo com a infraestrutura de IA ajudou a impulsionar uma das sequências mais fortes da história recente do mercado, especialmente para fabricantes de chips e fornecedores de hardware. O argumento da J.P. Morgan é que a escala e a estrutura dessa alta agora merecem um escrutínio mais atento.

Um pequeno grupo de empresas está sustentando grande parte do mercado

Um dos sinais mais fortes de alerta no relatório é a concentração. Segundo o texto de origem, apenas 42 empresas de IA no S&P 500 impulsionaram cerca de 65% a 80% dos lucros, das receitas e dos investimentos do índice desde 2022. Isso significa que a história de IA do mercado não está amplamente distribuída. Ela depende fortemente de um conjunto relativamente pequeno de empresas.

A concentração é ainda mais pronunciada no topo. As dez maiores ações dos EUA agora respondem por cerca de 40% da capitalização de mercado do S&P 500, ante 17% em 2015, segundo a J.P. Morgan. Esse tipo de concentração não implica automaticamente sobrevalorização, mas eleva as apostas. Quando os ganhos são conduzidos por um grupo estreito de liderança, os índices podem parecer saudáveis enquanto a amplitude subjacente enfraquece. Também aumenta o risco de que um revés em algumas empresas dominantes reverbere por carteiras amplas.

O banco observa, segundo o relatório, que em contexto global os EUA ainda não são o mercado mais concentrado. Mesmo assim, a concentração aumentou o bastante para se tornar uma parte material do debate sobre investimento em IA. Os investidores não estão apenas apostando na adoção da tecnologia. Estão fazendo apostas cada vez maiores e cada vez mais correlacionadas sobre quem capturará os lucros.

O trading de semicondutores é a comparação mais próxima com bolhas passadas

A comparação mais incisiva no relatório diz respeito aos semicondutores. A J.P. Morgan diz que os padrões técnicos da alta dos chips se assemelham aos vistos durante a era da bolha pontocom. Na prática, isso significa que os preços podem estar avançando muito à frente das linhas de tendência de longo prazo, enquanto o posicionamento dos investidores se torna mais agressivo.

O texto de origem lista quatro sinais de alerta destacados pelo banco. As ações de semicondutores estão se desviando de sua média móvel de 200 dias com a mesma intensidade que durante a bolha pontocom. Os fundos hedge estão mais alocados em ações de chips do que nunca. O crédito com margem na bolsa coreana triplicou desde 2020. E o trading de opções em ações de semicondutores agora está cinco vezes acima do nível de 2020.

Esses não são sinais de um mercado calmo. Eles apontam para alavancagem, concentração excessiva e especulação de curto prazo, especialmente em um setor visto como a camada essencial de infraestrutura para IA. O relatório também diz que os ETFs alavancados de chips quintuplicaram sua influência nos mercados acionários globais desde o início de 2024. Produtos que amplificam oscilações de preço podem intensificar tanto altas quanto reversões, adicionando outra camada de instabilidade se o sentimento mudar.

A Nvidia continua central, mas o cenário competitivo está mudando

A cautela da J.P. Morgan não diz respeito apenas às avaliações. Ela também trata da possibilidade de que a economia dominante de hoje seja menos durável do que o mercado presume. A Nvidia ainda detém a maior fatia do mercado de aceleradores de IA, mas o banco estima que essa participação possa cair de 85% em 2023 para 75% até 2026.

Quatro sinais de alerta no mercado de IA, segundo a J.P. Morgan: as ações de semicondutores estão se desviando de sua média móvel de 200 dias com a mesma intensidade que durante a bolha pontocom; os fundos hedge estão mais posicionados em ações de chips do que nunca; os empréstimos com margem na Coreia triplicaram desde 2020; e o trading de opções em ações de semicondutores está cinco vezes acima do nível de 2020. | Imagem: Bloomberg, Morgan Stanley, JPMAM, Citadel Securities via J.P. Morgan
Quatro sinais de alerta no mercado de IA, segundo a J.P. Morgan: as ações de semicondutores estão se desviando de sua média móvel de 200 dias com a mesma intensidade que durante a bolha pontocom; os fundos hedge estão mais posicionados em ações de chips do que nunca; os empréstimos com margem na Coreia triplicaram desde 2020; e o trading de opções em ações de semicondutores está cinco vezes acima do nível de 2020. | Imagem: Bloomberg, Morgan Stanley, JPMAM, Citadel Securities via J.P. Morgan

Isso ainda deixaria a Nvidia em posição dominante, mas a direção importa. O texto de origem diz que chips personalizados de grandes provedores de nuvem, como os TPUs do Google e o Trainium da Amazon, podem reduzir custos operacionais em 30% a 40% em comparação com as GPUs da Nvidia. Se hyperscalers e grandes provedores de modelos conseguirem reduzir custos de treinamento e inferência com hardware próprio ou alternativo, o fosso competitivo em torno dos fornecedores incumbentes pode se estreitar com o tempo.

O relatório cita o compromisso da Anthropic de executar o Claude no Trainium da Amazon pelos próximos dez anos como um sinal de que os compradores estão dispostos a buscar alternativas. Isso não implica um deslocamento de curto prazo da Nvidia, cujo ecossistema e vantagem de desempenho moldaram toda a construção da IA. Indica, porém, que o mercado está começando a testar se o poder de precificação na camada de infraestrutura pode se sustentar indefinidamente.

Alto crescimento não encerra a questão da lucratividade

A J.P. Morgan também aponta uma tensão na camada de provedores de modelos. Laboratórios de IA líderes como OpenAI e Anthropic estão registrando crescimento rápido de receita, mas os custos de computação permanecem enormes e a lucratividade de longo prazo ainda é incerta. Essa lacuna importa porque o ciclo atual de investimento em IA presume não apenas adoção, mas monetização duradoura em software e serviços.

O texto de origem menciona outro ponto de pressão: se os preços de tokens subirem demais, os clientes podem migrar cargas de trabalho para modelos open source mais baratos. Ele também diz que já há sinais de empresas transferindo tarefas para sistemas de menor custo e que os preços médios dos tokens estão caindo. Essas tendências sugerem que a competição por preço pode se intensificar mesmo com o aumento da demanda, pressionando as margens dos provedores de modelos.

Em outras palavras, o mercado de IA pode estar enfrentando um padrão familiar de mudanças de plataforma do passado. Os líderes de infraestrutura desfrutam de demanda explosiva, os players de aplicação correm atrás de escala e os investidores recompensam o crescimento de forma agressiva. Mas, quando a concorrência se expande e os compradores ficam sensíveis a custos, a economia pode parecer menos linear do que a narrativa inicial sugeria.

Um alerta, não um veredito

O significado da avaliação da J.P. Morgan é que ela reposiciona o boom da IA como uma história de tecnologia e também de estrutura de mercado. O banco não está argumentando que a IA carece de substância. Está dizendo que a importância tecnológica real pode coexistir com euforia dos investidores, exposição concentrada e dinâmicas de preços instáveis.

Essa distinção importa. Algumas bolhas se formam em torno de ideias vazias. Outras se formam em torno de transformações reais cujo impacto de longo prazo é genuíno, mesmo que as avaliações de curto prazo excedam o razoável. O ciclo atual de IA pode acabar produzindo mudanças duradouras em computação, software corporativo e produtividade industrial. Mas o alerta da J.P. Morgan é que os investidores não devem confundir importância estratégica com imunidade ao excesso especulativo.

Por ora, o mercado de IA continua sustentado por forte demanda, grandes compromissos de capital e a crença de que os vencedores definirão a próxima era da computação. O relatório do banco sugere que uma questão mais dura está emergindo por baixo dessa confiança: não se a IA importa, mas se o mercado se tornou dependente demais de uma versão estreita e cada vez mais alavancada dessa aposta.

Este artigo é baseado na cobertura do The Decoder. Leia o artigo original.

Originally published on the-decoder.com