Apelos por desaceleração da IA abalam mercados globais de tecnologia

Um apelo coordenado de algumas das figuras mais influentes da inteligência artificial para que o setor reduza o ritmo de desenvolvimento deixou os investidores inquietos de Seul a Londres, derrubando com força as ações de fabricantes de chips, operadoras de data centers e grandes apoiadores da IA. A reavaliação marca um dos sinais mais claros até agora de que a fé do mercado em um boom ininterrupto da IA já não é incondicional.

As ações europeias de tecnologia caíram para uma mínima de seis semanas à medida que o clima piorava ao longo da sessão, segundo a cobertura de negócios em tempo real do The Guardian. O movimento seguiu uma abertura contundente na Ásia, onde os pesos-pesados regionais da IA lideraram as quedas.

Campeões asiáticos da IA lideram o recuo

A pressão de venda foi mais intensa na Ásia, onde a negociação abriu com um recuo generalizado entre os nomes de semicondutores e de investimentos mais estreitamente ligados à cadeia de suprimentos da inteligência artificial. O índice KOSPI da Coreia do Sul caiu 3,7%, enquanto várias ações individuais recuaram consideravelmente mais.

  • SK Hynix, a fabricante de chips de memória com forte exposição a hardware de IA, despencou 5,75%.
  • SoftBank caiu até 13% em Tóquio.
  • Taiwan Semiconductor Manufacturing Company recuou 1,2% em Taipé.

A queda particularmente acentuada da SoftBank veio depois que o CEO da OpenAI, Sam Altman, afirmou que a criadora do ChatGPT não abrirá capital neste ano. A SoftBank detém uma participação na OpenAI, o que a torna um dos proxies listados mais diretos para o destino da empresa privada. Quando a perspectiva de uma listagem no curto prazo se esvai, um catalisador visível para a avaliação do grupo japonês também desaparece.

Por que os alertas tiveram tanto impacto

O que torna este episódio incomum é a origem da cautela. Em vez de reguladores, vendedores a descoberto ou acadêmicos céticos, os apelos por desaceleração vieram de pessoas que constroem a própria tecnologia.

Amodei: construir rápido demais é imprudente

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, pediu que a indústria de IA desacelere seu desenvolvimento, argumentando que construir rápido demais é imprudente. Ele alertou que um enxame de agentes de IA poderia, em última análise, causar centenas de bilhões de dólares em danos ao assumir o controle de toda a internet.

As afirmações de Amodei não passaram incólumes. Alguns especialistas em IA contestaram sua caracterização dos riscos, argumentando que o cenário que ele descreve é especulativo e que desacelerar o desenvolvimento poderia simplesmente entregar o campo a concorrentes menos cautelosos. Mas os mercados raramente esperam um consenso técnico antes de precificar o risco, e desta vez não foi exceção.

Altman e Musk apoiam o apelo

A mensagem ganhou força quando Altman e Elon Musk rapidamente a endossaram. Um argumento de segurança apoiado pela liderança tanto da OpenAI quanto da Anthropic, além de um dos empreendedores de tecnologia mais proeminentes do mundo, é difícil para o mercado descartar como uma visão marginal. Quando as pessoas que mais têm a ganhar com um progresso mais rápido pedem publicamente contenção, os investidores razoavelmente perguntam o que elas veem que os outros não veem.

A pergunta que ninguém respondeu: quem paga?

Para os investidores, a consequência prática de uma implantação mais lenta da IA é direta e desconfortável. Se o ritmo de desenvolvimento desacelerar, os retornos comerciais que deveriam justificar a atual onda de gastos em infraestrutura podem chegar mais tarde, e menores, do que o planejado.

Ipek Ozkardeskaya, analista sênior da Swissquote, descreveu um clima azedo nos mercados e apontou o problema central: se a corrida da IA desacelerar materialmente, a questão-chave passa a ser quem paga por toda a infraestrutura já comprometida. Contratos de arrendamento, dívidas e compromissos de energia permanecem em vigor mesmo que a demanda esperada por computação e o crescimento da receita percam impulso.

O risco de crédito entra na história da IA

Esse descompasso, sugeriu Ozkardeskaya, poderia empurrar o risco de crédito para o centro da narrativa da IA. Operadoras de data centers altamente alavancadas, e os credores expostos a projetos subscritos com base em premissas agressivas sobre a demanda futura por IA, seriam os mais vulneráveis, particularmente com as taxas de juros, e portanto os custos de empréstimo, em alta esperada.

É uma mudança significativa na forma como a operação é enquadrada. Durante boa parte do boom, o debate girou em torno do crescimento: com que rapidez os modelos melhorariam e quanto da economia eles poderiam remodelar. Agora a conversa se ampliou para incluir a durabilidade dos balanços que financiam esse crescimento.

Uma fonte incomum de contenção

Ozkardeskaya fez ainda uma observação que vale notar. A desaceleração, se vier, pode não ocorrer porque as Big Techs ficaram sem dinheiro ou porque os investidores se recusaram a financiar a expansão. Ela pode vir dos próprios desenvolvedores, exatamente as pessoas cujos modelos deveriam justificar os gastos. Esse é um tipo diferente de risco do que o mercado está acostumado a precificar.

O que observar a seguir

A cobertura em tempo real destacou vários lançamentos e eventos programados que podem moldar o sentimento ao longo do restante do dia:

  • 11h30 BST, relatório de inflação da Índia referente a agosto.
  • 13h30 BST, relatório de inflação do Canadá referente a agosto.
  • 16h15 BST, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, faz um discurso em Viena, na Áustria.

Os dados de inflação importam diretamente para a operação da IA porque alimentam as perspectivas para as taxas de juros. Custos de empréstimo mais altos pesam mais sobre empresas cujas avaliações dependem de lucros projetados para daqui a vários anos, e sobre os projetos de infraestrutura alavancados que sustentam a expansão da IA.

Investidores reprecificam a operação da IA

Tomados em conjunto, os movimentos da sessão sugerem um mercado que havia se acomodado com uma única direção de viagem e agora testa cenários alternativos. O otimismo em relação à inteligência artificial sofreu um golpe, e a reprecificação é visível em continentes, classes de ativos e tipos de empresas, de chips de memória a conglomerados que detêm participações minoritárias em laboratórios privados.

Nada disso significa que o boom da IA acabou, e nenhum dos executivos que pedem contenção sugeriu que o desenvolvimento deveria parar. Mas o episódio mostra o quão rapidamente o sentimento pode virar quando os próprios líderes do setor introduzem dúvidas sobre ritmo, segurança e a economia da expansão. Para os investidores, o desafio é que as mesmas vozes creditadas por criar valor enorme são agora as que aconselham cautela, deixando o mercado decidir quanto vale essa cautela.

Este artigo é baseado em reportagem do The Guardian. Leia o artigo original.

Originally published on theguardian.com