Um Legado de Liderança Ousada

Hiroshi Okuda, o ex-presidente do conselho da Toyota Motor Corporation que desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do RAV4 e do Prius híbrido, faleceu aos 92 anos. Okuda, que liderou a montadora japonesa em uma era transformadora nos anos 1990 e início dos anos 2000, foi amplamente reconhecido por suas agressivas medidas de corte de custos e sua disposição para assumir riscos que outros consideravam ousados demais.

A morte de Okuda marca o fim de uma era para a Toyota, uma empresa que ele ajudou a conduzir por alguns de seus períodos mais desafiadores e inovadores. Seu estilo de liderança era caracterizado por uma abordagem direta e uma crença profunda de que a complacência era a maior ameaça a qualquer corporação bem-sucedida. Ele frequentemente falava sobre os perigos do que chamava de 'doença da grande empresa' — uma condição em que o sucesso gera inércia e relutância em mudar.

De Mecânico a Presidente do Conselho

A jornada de Okuda até o topo da Toyota foi tudo menos convencional. Nascido em 1934, ele ingressou na Toyota em 1955 após se formar em Direito pela Universidade Hitotsubashi. Seus primeiros anos na empresa foram passados em várias funções de produção e engenharia, onde ganhou reputação de ser prático e não ter medo de sujar as mãos. Essa experiência prática mais tarde informaria sua filosofia de gestão, que enfatizava eficiência e comunicação direta.

No início dos anos 1990, Okuda havia subido na hierarquia para se tornar diretor executivo sênior. Em 1995, foi nomeado presidente, cargo que ocupou até 1999, quando se tornou vice-presidente do conselho. Em seguida, atuou como presidente do conselho de 1999 a 2006, período durante o qual continuou a exercer influência significativa sobre a direção estratégica da empresa.

Defendendo a Inovação: RAV4 e Prius

Um dos legados mais duradouros de Okuda é seu apoio inabalável ao Toyota RAV4 e ao Prius híbrido. O RAV4, lançado em 1994, foi um dos primeiros SUVs crossover compactos do mercado. Numa época em que os SUVs eram veículos grandes, baseados em caminhões, a plataforma de carro do RAV4 foi uma mudança radical. Okuda defendeu o projeto, acreditando que havia uma demanda crescente por um SUV menor e mais eficiente em termos de combustível que pudesse lidar tanto com a condução urbana quanto com condições off-road leves.

O Prius, lançado em 1997, foi uma aposta ainda mais ambiciosa. A tecnologia híbrida estava em sua infância, e muitos especialistas do setor duvidavam que os consumidores aceitassem um veículo que combinasse um motor a gasolina com um motor elétrico. Okuda, no entanto, viu o Prius como uma forma de posicionar a Toyota como líder em tecnologia ambiental. Ele pressionou a equipe de desenvolvimento para lançar o carro rapidamente, e o Prius se tornou o híbrido mais vendido do mundo, com mais de 10 milhões de unidades vendidas até 2020.

Esses veículos não apenas transformaram a linha de produtos da Toyota, mas também remodelaram a indústria automotiva global. O RAV4 ajudou a popularizar o segmento de crossovers, que hoje domina o mercado, enquanto o Prius tornou a tecnologia híbrida mainstream e abriu caminho para os veículos elétricos de hoje.

Corte de Custos e a Luta Contra a Complacência

A reputação de Okuda como cortador de custos era bem merecida. Ele implementou uma série de programas agressivos de redução de custos na Toyota, visando desde processos de fabricação até gestão da cadeia de suprimentos. Ele era conhecido por sua abordagem 'genchi genbutsu' — ir ao local real para ver a situação real — que usava para identificar ineficiências e impulsionar melhorias.

Mas seu corte de custos não era apenas sobre economizar dinheiro; era sobre incutir uma cultura de melhoria contínua e vigilância. Okuda frequentemente alertava contra os perigos do sucesso, argumentando que isso poderia levar à arrogância e à perda de foco. Ele incentivava funcionários de todos os níveis a desafiar o status quo e a sempre procurar maneiras de fazer as coisas melhor.

Sua liderança foi posta à prova durante a crise financeira asiática no final dos anos 1990, quando a Toyota enfrentou uma queda acentuada nas vendas. Okuda respondeu acelerando os esforços de corte de custos e expandindo para mercados emergentes, estratégias que ajudaram a empresa a superar a tempestade e sair mais forte.

Uma Figura Controversa

Okuda não estava isento de críticas. Sua natureza franca às vezes irritava as pessoas, e suas avaliações contundentes de concorrentes e até de sua própria empresa viraram manchetes. Ele também esteve envolvido em várias controvérsias, incluindo uma disputa com o governo japonês sobre regulamentações de segurança e uma briga pública com uma montadora rival.

Apesar dessas controvérsias, Okuda permaneceu uma figura respeitada no setor. Sua disposição para assumir riscos e seu compromisso com a inovação eram amplamente admirados, e ele era frequentemente procurado por suas percepções sobre o futuro da indústria automotiva.

Anos Finais e Legado

Após deixar o cargo de presidente do conselho em 2006, Okuda permaneceu ativo no setor, atuando como consultor da Toyota e palestrando em várias conferências e eventos. Ele também dedicou tempo a atividades filantrópicas, particularmente nas áreas de educação e tecnologia.

A morte de Hiroshi Okuda é uma perda significativa para o mundo automotivo. Suas contribuições para a Toyota e para a indústria como um todo são imensuráveis. Ele será lembrado como um líder que não teve medo de arriscar, que lutou contra a complacência e que ajudou a moldar o cenário automotivo moderno.

Enquanto a Toyota continua a navegar na transição para veículos elétricos e autônomos, os princípios que Okuda defendeu — inovação, eficiência e busca incansável por melhoria — permanecem tão relevantes quanto sempre. Seu legado viverá na empresa que ele ajudou a construir e nos veículos que carregam sua marca.

Este artigo é baseado em reportagens da Automotive News. Leia o artigo original.

Originally published on autonews.com