Fechando uma lacuna na medicina espacial
Um novo estudo abordou um dos desafios menos discutidos, mas medicamente significativos do voo espacial humano: o risco elevado de coágulos sanguíneos em astronautas mulheres. A pesquisa, que analisou dados fisiológicos de tripulantes mulheres juntamente com estudos análogos baseados em terra, fornece a avaliação mais detalhada até agora de como a microgravidade afeta a coagulação em mulheres e quais contramedidas podem ser eficazes.
A formação de coágulos sanguíneos, ou tromboembolismo venoso, é um risco conhecido do voo espacial para todos os astronautas. A microgravidade causa deslocamento de fluido para cima no corpo, aumentando a pressão nas veias da cabeça e pescoço enquanto reduz a velocidade do fluxo sanguíneo nas extremidades inferiores. Esta combinação cria condições que favorecem a formação de coágulos, semelhante ao risco aumentado experimentado por passageiros de avião em voos longos, mas sustentado por semanas ou meses.
Por que as diferenças sexuais importam
As mulheres enfrentam fatores de risco de coagulação adicionais que interagem com o ambiente do voo espacial. Contraceptivos hormonais, que muitas astronautas mulheres usam para controlar a menstruação durante as missões, são conhecidos por aumentar o risco de coágulos em ambientes terrestres. A combinação de contracepção hormonal e mudanças circulatórias induzidas pela microgravidade cria um risco composto que não foi bem caracterizado até agora.
As mudanças relacionadas à gravidez no sistema de coagulação, embora não sejam diretamente relevantes durante as missões, significam que astronautas mulheres que retornam de voos de longa duração podem enfrentar riscos elevados durante o período de recuperação pós-voo. Compreender esses fatores de risco específicos do sexo é essencial para o planejamento de missões e o apoio médico da tripulação, particularmente quando agências planejam missões à Lua e Marte que durarão meses ou anos.
O estudo descobriu que astronautas mulheres apresentaram padrões distintos de mudanças de biomarcadores de coagulação em comparação com suas contrapartes masculinas durante o voo espacial. Especificamente, os níveis de certos fatores de coagulação aumentaram mais em mulheres, enquanto as vias anticoagulantes naturais mostraram supressão maior. Essas diferenças foram estatisticamente significativas e persistiram durante toda a duração da missão.
Contexto histórico
A questão ganhou atenção pública em 2019 quando a astronauta NASA Serena Aunon-Chancellor descobriu um coágulo sanguíneo em sua veia jugular durante uma missão a bordo da Estação Espacial Internacional. O incidente foi o primeiro caso confirmado de trombose venosa profunda no espaço e destacou a necessidade de melhor compreensão dos riscos de coagulação no ambiente do voo espacial.
Desde então, NASA e outras agências espaciais aumentaram seu foco na saúde vascular durante o voo espacial. O monitoramento por ultrassom dos vasos sanguíneos tornou-se uma parte rotineira das avaliações médicas em voo, e os protocolos para gerenciar coágulos no espaço foram desenvolvidos e refinados.
No entanto, a maior parte da pesquisa existente sobre fisiologia do voo espacial foi conduzida predominantemente em sujeitos masculinos, refletindo a demografia histórica do corpo de astronautas. À medida que a proporção de astronautas mulheres aumenta, e o voo espacial comercial abre o acesso a uma população mais ampla, compreender os riscos específicos do sexo se torna cada vez mais crítico.
Contramedidas sob investigação
O estudo avaliou várias contramedidas potenciais para gerenciar o risco de coágulos em astronautas mulheres. Dispositivos de pressão negativa da parte inferior do corpo, que usam sucção para puxar sangue em direção às pernas e simulam os efeitos da gravidade na circulação, mostraram promessa em reduzir a estase venosa. Esses dispositivos já são usados na ISS para outros fins e poderiam ser incorporados aos protocolos rotineiros de manutenção da saúde.
Regimes de exercício, que já são uma pedra angular da manutenção da saúde dos astronautas, foram encontrados para fornecer alguns benefícios protetores contra a formação de coágulos. No entanto, o estudo observou que o exercício sozinho era insuficiente para neutralizar completamente os efeitos combinados da microgravidade e da contracepção hormonal na coagulação.
Abordagens alternativas para o manejo menstrual que não aumentam o risco de coagulação também estão sendo investigadas. Opções não hormonais e formulações de progestagênio isolado, que apresentam risco de coágulo menor que os contraceptivos orais combinados, podem oferecer alternativas que equilibrem a supressão menstrual com a segurança vascular.
Implicações para missões de longa duração
Os achados têm implicações diretas para as missões planejadas à Lua sob o programa Artemis da NASA e futuras missões tripuladas a Marte. Artemis comprometeu-se explicitamente a pousar a primeira mulher na Lua, e as missões a Marte que durarem dois ou três anos exigirão que os membros da tripulação gerenciem riscos à saúde por durações sem precedentes.
Para as missões a Marte, as apostas são particularmente altas porque a evacuação médica não seria possível. Qualquer evento de coagulação grave durante um trânsito de Marte ou permanência na superfície precisaria ser gerenciado com recursos a bordo e treinamento médico da tripulação. A prevenção através de melhor compreensão dos fatores de risco e contramedidas eficazes é muito preferível ao tratamento em um ambiente com recursos limitados a milhões de quilômetros do hospital mais próximo.
Os pesquisadores pediram que a análise estratificada por sexo se tornasse prática padrão em toda a pesquisa médica do voo espacial, observando que tratar a população de astronautas como fisiologicamente homogênea corre o risco de perder diferenças importantes que podem afetar a segurança da tripulação. Também recomendaram que a avaliação do risco de coagulação seja incorporada à seleção de tripulação e planejamento de missões para voos de longa duração.
Um campo em crescimento
O estudo contribui para um corpo crescente de pesquisa sobre diferenças sexuais na fisiologia do voo espacial. Além da coagulação, pesquisadores estão investigando como a microgravidade afeta a densidade óssea, massa muscular, visão e susceptibilidade à radiação de forma diferente em homens e mulheres. Essas diferenças não são apenas acadêmicas; têm implicações práticas para o design de missões, protocolos de saúde da tripulação e o equipamento e medicamentos transportados em espaçonaves. À medida que a humanidade se prepara para suas missões espaciais mais ambiciosas, garantir que a ciência médica seja tão inclusiva quanto as manifestações da tripulação é tanto uma necessidade científica quanto um imperativo moral.
Este artigo é baseado em relatórios do Universe Today. Leia o artigo original.


