Um El Niño que ainda está a meses de seu pico já quebrou uma série de recordes — uma posição incomum para um padrão climático que normalmente reserva sua maior intensidade para o fim do ano civil. A New Scientist relata que este evento já está reescrevendo os livros de recordes bem antes de seu máximo esperado, e que dois fatores principais explicam como ele se tornou tão poderoso.

Vale a pena destrinchar essa formulação, porque ela separa duas questões diferentes. A primeira é o que é um El Niño e como ele acumula energia. A segunda é por que este evento específico disparou antes do previsto. As respostas se sobrepõem, mas não são a mesma coisa.

Uma fase quente que atinge o pico tarde

O El Niño é a fase quente da Oscilação Sul do El Niño, ou ENSO, uma dança acoplada entre o Oceano Pacífico tropical e a atmosfera acima dele. Em condições neutras, os ventos alísios sopram de leste para oeste através do Pacífico equatorial, acumulando água superficial quente no oeste, perto da Indonésia e da Austrália, enquanto água fria e rica em nutrientes aflora ao longo da costa da América do Sul.

Quando esses ventos enfraquecem, o equilíbrio se desfaz. A água quente se espalha para leste, a zona de chuvas tropicais mais intensas migra com ela, e a atmosfera se reorganiza por toda a bacia — e, por meio de ondas atmosféricas, muito além dela. O padrão normalmente leva meses para se formar e geralmente atinge o auge no fim do outono ou início do inverno do Hemisfério Norte. O evento atual ainda está aquém desse pico, o que é exatamente o que torna sua sequência precoce de recordes tão notável: a fase mais forte pode ainda não ter chegado.

Como um El Niño acumula força

O feedback de Bjerknes

No coração de todo El Niño está um ciclo autorreforçador batizado em homenagem ao meteorologista Jacob Bjerknes. Ventos alísios enfraquecidos permitem que a água superficial quente deslize para leste. Água mais quente impulsiona convecção mais forte e chuvas mais intensas. Essa convecção, por sua vez, reorganiza a circulação atmosférica de uma forma que enfraquece ainda mais os ventos alísios. Cada passagem pelo ciclo amplifica a anomalia.

Como este é um feedback positivo, algo precisa detê-lo. Na prática, os limites vêm do suprimento finito de calor do oceano na faixa equatorial e do ciclo sazonal, que eventualmente se reafirma e começa a desmontar a anomalia.

Rajadas de vento de oeste e ondas de Kelvin

O El Niño não se forma em uma curva suave e constante. Ele avança aos solavancos. Rajadas de curta duração de ventos de oeste sobre o Pacífico ocidental empurram a água superficial quente para leste e geram ondas de Kelvin equatoriais de subsidência — pulsos de energia que viajam para leste ao longo da termoclina, a fronteira entre a água superior mais quente e a água mais fria abaixo.

À medida que essas ondas passam, elas aprofundam a termoclina no Pacífico oriental. Uma termoclina mais profunda significa que o afloramento traz água mais quente em vez de fria, de modo que a língua de água fria que normalmente acompanha a costa sul-americana enfraquece. Quando as rajadas de vento se repetem ao longo de uma estação, elas continuam reabastecendo o evento como combustível adicionado a um fogo.

Calor subsuperficial: o tanque de combustível do oceano

O calor superficial só pode persistir se houver calor armazenado abaixo dele. A profundidade da termoclina e o volume de água quente no Pacífico equatorial superior atuam como um reservatório que estabelece um teto aproximado para a intensidade que um evento pode atingir. Sistemas de observação oceânica e modelos que acompanham esse calor subsuperficial geralmente se saem melhor na antecipação de El Niños fortes do que aqueles que olham apenas para a superfície.

Vários ingredientes tendem a aparecer quando um El Niño se intensifica:

  • Ventos alísios que enfraquecem e às vezes invertem de direção
  • Rajadas repetidas de vento de oeste que empurram o oceano ainda mais para fora do equilíbrio
  • Ondas de Kelvin equatoriais que aprofundam a termoclina e suprimem o afloramento frio
  • Um reservatório profundo de calor subsuperficial pronto para ser trazido à superfície
  • Tempo intrassazonal, como a Oscilação de Madden–Julian, capaz de desencadear ou sustentar essas rajadas de vento

Os dois fatores por trás de um evento extremo

A New Scientist atribui a força excepcional deste evento a dois fatores principais. De modo geral, as explicações para qualquer El Niño fora do comum se dividem em duas famílias. A primeira diz respeito ao estado do oceano no ponto de partida: quanto calor havia se acumulado no Pacífico equatorial, quão profunda estava a termoclina e como os ventos alísios vinham se comportando nos meses anteriores.

A segunda diz respeito à persistência da atmosfera. Uma anomalia oceânica quente precisa de reforço atmosférico para se transformar em um monstro. Se rajadas de vento, convecção e atividade intrassazonal se alinham repetidas vezes, o oceano continua recebendo empurrões na mesma direção. Quando ambas as famílias de fatores estão alinhadas — um oceano bem abastecido e uma atmosfera que continua amplificando em vez de amortecer o sinal — um El Niño pode superar até previsões generosas.

Também vale notar que a força é medida de várias maneiras. Temperaturas absolutas da superfície do mar e anomalias calculadas em relação a uma linha de base móvel e em aquecimento podem classificar o mesmo evento de formas diferentes. Essa nuance importa ao comparar este El Niño com gigantes históricos, e é uma das razões pelas quais manchetes sobre recordes devem ser lidas com cuidado.

O que eventos fortes mudam

As consequências de um El Niño poderoso se propagam muito além dos trópicos. Chuvas mais intensas normalmente se deslocam para o Pacífico oriental e a costa oeste da América do Sul, elevando o risco de inundações no Peru e no Equador, enquanto a Indonésia e partes da Austrália tendem à seca e ao aumento do perigo de incêndios. A água quente estressa os recifes de coral, às vezes desencadeando branqueamento em massa.

  • Mudanças nas chuvas tropicais que remodelam perspectivas agrícolas
  • Atividade de furacões suprimida no Atlântico, ao lado de atividade intensificada no Pacífico oriental
  • Branqueamento de corais em recifes expostos a calor prolongado
  • Um aumento temporário na temperatura média global, frequentemente mais visível no ano seguinte ao pico
  • Efeitos em cadeia para pesca, hidrelétricas, demanda de energia e preços de commodities

O problema da previsão

Os meteorologistas observam um conjunto específico de sinais: conteúdo de calor do oceano subsuperficial, o comportamento dos ventos alísios, nebulosidade e convecção sobre o Pacífico ocidental, e a dispersão das previsões em grandes conjuntos de modelos climáticos. Previsões feitas no meio do ano são notoriamente difíceis, um período frequentemente descrito como barreira de previsibilidade, porque o sistema acoplado é especialmente sensível a pequenas perturbações.

Uma vez que essa janela se fecha, a confiança geralmente melhora. Isso significa que a trajetória deste evento deve se tornar mais clara à medida que se aproxima de seu pico sazonal — e, como já está estabelecendo recordes meses antes, o máximo eventual ainda pode superar tudo o que foi observado até agora. Da mesma forma, o sistema pode estagnar se os ventos de reforço diminuírem.

O quadro mais amplo

A ENSO é uma oscilação natural, e eventos fortes ocorreram muito antes de as emissões industriais começarem a alterar a atmosfera. Mas todo El Niño agora se desenrola sobre uma linha de base em aquecimento, e o conteúdo de calor de fundo do oceano vem aumentando ao longo de décadas. Um oceano mais quente e mais carregado fornece mais combustível para os feedbacks descritos acima, o que é uma razão plausível pela qual eventos extremos podem se tornar mais consequentes mesmo que sua frequência não mude drasticamente.

Atribuir qualquer El Niño individual às mudanças climáticas continua sendo uma questão de pesquisa, e não uma resposta definitiva; a posição honesta é que a variabilidade natural e o aquecimento de longo prazo interagem. O que não está em dúvida é o valor do monitoramento. Gestores de recursos hídricos, agricultores, seguradoras, operadores de redes elétricas e agências de desastres planejam em torno das previsões da ENSO, e quanto mais cedo um sinal como este aparece, mais tempo eles têm para se preparar.

Por ora, a história é a de um padrão esquentando antes do previsto — e de uma comunidade científica observando de perto para ver se os próximos meses confirmam o ritmo recorde ou o desaceleram.

Este artigo é baseado em reportagem da New Scientist. Leia o artigo original.

Originally published on newscientist.com