Rajadas rápidas de rádio estão se tornando uma nova ferramenta para a contabilidade cósmica

Durante décadas, astrônomos enfrentaram uma discrepância persistente no inventário do universo. Cálculos do cosmos primitivo indicam que a matéria ordinária, os átomos que compõem estrelas, planetas, gás e pessoas, deveria responder por uma fatia muito maior do universo visível do que os telescópios conseguem contabilizar diretamente hoje dentro de galáxias e estrelas. Em 21 de julho, pesquisadores descreveram uma nova forma de localizar essa parcela ausente, usando um dos sinais mais breves e energéticos da astronomia: as rajadas rápidas de rádio.

O trabalho, liderado por cientistas do MIT como parte da colaboração CHIME/FRB e publicado em Physical Review Letters, usa a forma como as rajadas de rádio são distorcidas ao atravessar o espaço intergaláctico. O resultado aponta para um quadro que muitos cosmólogos já suspeitavam, mas que ainda lutavam para confirmar com evidências diretas: grande parte da matéria ordinária “perdida” do universo parece estar espalhada em nuvens difusas ao redor de grupos de galáxias, estendendo-se além do esperado.

O que faltava não era a matéria em si, mas um mapa confiável

O problema nunca foi a ideia de que a matéria simplesmente desapareceu. Em vez disso, medições do universo jovem e da estrutura cósmica posterior há muito indicam que uma quantidade substancial de matéria ordinária deveria existir fora das estruturas brilhantes que a maioria das pessoas associa ao cosmos. Estrelas e galáxias contêm apenas parte do total esperado. O restante acreditava-se estar distribuído de forma tênue no gás entre e ao redor das galáxias, o que dificulta sua detecção direta.

É aí que as rajadas rápidas de rádio, ou FRBs, se tornam úteis. São clarões ultrabrilhantes de ondas de rádio que duram apenas milissegundos e se originam em eventos poderosos no universo distante. À medida que uma FRB viaja pelo espaço, seu sinal é afetado pelo material que atravessa. No relatório fornecido, o sinal é descrito como ficando “espalhado” no tempo. Quanto mais matéria ao longo do caminho, maior o espalhamento quando a rajada chega à Terra.

Esse efeito básico dá aos astrônomos uma forma de usar FRBs como sondas de material difícil de ver de outra maneira. O desafio é separar quanto da distorção vem da matéria dentro das galáxias e quanto vem do gás difuso em outros lugares.

Nuvens difusas de matéria “perdida” cercam a maioria das galáxias
Distribuição simulada de gás ao redor de galáxias. Crédito: IllustrisTNG

Um novo método combina dados de rajadas com a localização das galáxias

A equipe liderada pelo MIT abordou esse problema de forma estatística. De acordo com o texto-fonte fornecido, os pesquisadores mediram o espalhamento de milhares de sinais de FRB detectados na Terra e compararam essas medições com as posições das galáxias no universo. Isso permitiu estimar quanto da distorção de cada rajada estava ligado à matéria associada às galáxias e quanto era causado por outro material no espaço ao redor.

A importância desse passo não é apenas sugerir que a matéria perdida está presente. Ele também ajuda a localizar onde essa matéria tende a se concentrar. Os pesquisadores relatam que a matéria ordinária está concentrada em nuvens muito difusas que cercam grupos de galáxias e que essas nuvens se estendem a distâncias maiores do que os cientistas haviam previsto.

Na prática, isso significa que as galáxias podem influenciar uma região do espaço muito mais ampla do que uma simples imagem de estrelas e disco sugeriria. A matéria não está confinada de forma organizada às estruturas brilhantes visíveis em imagens ópticas. Em vez disso, uma parcela considerável parece ocupar halos estendidos e ambientes tênues, mais difíceis de observar diretamente.

Por que o resultado importa além de um problema de contabilidade

Estudos sobre a matéria perdida do cosmos não são apenas exercícios de contabilidade. Onde a matéria ordinária termina está ligado a como as galáxias se formam, crescem e se regulam. O resultado resumido no texto fornecido apoia a ideia de que a matéria pode ser empurrada para fora das galáxias por processos energéticos. Isso importa porque a evolução galáctica depende de ciclos de entrada e saída: o gás cai, forma estrelas e depois pode ser aquecido ou expulso pela atividade estelar e por outros eventos energéticos.

Se grandes quantidades de matéria ordinária estiverem longe das galáxias em nuvens tênues, isso afeta modelos de como as galáxias retêm combustível para a futura formação estelar e de como trocam material com o ambiente ao redor. Também molda os esforços para conectar observações do universo atual às condições inferidas do cosmos primitivo.

O método do estudo pode ser tão significativo quanto o resultado em si. Durante anos, as FRBs foram tratadas como ferramentas astrofísicas promissoras, mas o número crescente de rajadas detectadas agora está transformando essa promessa em algo mais sistemático. Uma amostra de milhares de eventos permite que os pesquisadores vão além de anedotas e usem esses sinais como uma sonda em grande escala da estrutura cósmica.

Nuvens difusas de matéria “perdida” cercam a maioria das galáxias
A distribuição espacial dos sinais de rajadas rápidas de rádio comparada com as distribuições de galáxias. Crédito: Haochen Wang

Essa é uma mudança notável. Em vez de depender apenas dos eventos mais brilhantes ou mais excepcionais, os astrônomos podem começar a usar populações de FRBs para estudar a distribuição da matéria por distâncias imensas. À medida que os catálogos de detecção crescem, a precisão desses mapas deve melhorar.

O que os pesquisadores dizem ter encontrado

O texto fornecido cita o estudante de pós-graduação do MIT Haochen Wang dizendo que, no geral, onde há mais galáxias, tende a haver mais matéria perdida ao redor delas. Esse enquadramento é importante porque liga a matéria oculta não a anomalias isoladas, mas à arquitetura mais ampla do universo. A matéria não está espalhada aleatoriamente. Ela parece acompanhar os ambientes criados por galáxias e grupos de galáxias.

Assim, o estudo reforça a imagem de que grande parte do orçamento da matéria ordinária reside nas grandes e tênues estruturas ao redor das galáxias visíveis, e não dentro dos componentes brilhantes das próprias galáxias. Também sugere que suposições anteriores sobre até onde essas nuvens difusas se estendem podem ter sido conservadoras demais.

Um sinal breve com implicações de longo alcance

As rajadas rápidas de rádio continuam sendo um dos fenômenos mais intrigantes da astronomia moderna, mas este trabalho mostra que seu valor não se limita a entender as próprias rajadas. Elas estão se tornando instrumentos para medir o universo de maneiras que a imagem convencional não consegue. Ao tratar cada rajada como uma sonda do espaço que atravessa, os pesquisadores podem aprender sobre matéria muito tênue e dispersa para se destacar por conta própria.

Isso torna o novo resultado mais do que uma atualização restrita de cosmologia. É uma evidência de que a astronomia está entrando em uma fase em que flashes de rádio fugazes podem ajudar a resolver uma das mais antigas lacunas observacionais em grande escala da área. A matéria ordinária perdida talvez não estivesse perdida em sentido literal. Ela estava esperando em reservatórios difusos e extensos ao redor das galáxias, e as rajadas rápidas de rádio agora estão ajudando a trazê-la para a दृश्य.

Este artigo é baseado na cobertura da Phys.org. Leia o artigo original.

Originally published on phys.org