Uma descoberta incomum na Aberdeen medieval

Arqueólogos e pesquisadores que estudam restos humanos de Aberdeen identificaram o que é descrito como a ponte dentária mais antiga do tipo conhecida na Escócia. O achado, uma mandíbula inferior de um homem de meia-idade que viveu há cerca de 500 anos, preserva um arame de ouro de 20 quilates enrolado em torno de dois dentes para vencer a lacuna deixada por um incisivo perdido.

A descoberta oferece um raro vislumbre do cuidado bucal no fim da Idade Média e das medidas que algumas pessoas talvez tenham tomado para lidar com dentes ausentes. Segundo o relato, a mandíbula foi recuperada em escavações em St. Nicholas East Kirk, em Aberdeen, um sítio de igreja que continha mais de 900 sepultamentos e milhares de ossos humanos. Embora a mandíbula não tenha sido encontrada dentro de um sepultamento completo, os pesquisadores puderam inferir pela forma do osso e pelo desgaste dos dentes que ela provavelmente pertencia a um homem de meia-idade.

O que a mandíbula revela

A mandíbula inferior preservava nove dentes e evidências de que o incisivo central inferior direito havia sido perdido durante a vida do homem. Os pesquisadores também encontraram sinais generalizados de saúde bucal precária, incluindo placa endurecida em todos os dentes, cáries em três dentes e doença periodontal associada à retração gengival. Nesse contexto, o arame de ouro se destacou como uma intervenção notável.

O arame, conhecido como ligadura, havia sido instalado ao redor de dois dentes adjacentes à lacuna. Os pesquisadores acreditam que ele provavelmente segurava um dente substituto, efetivamente criando uma ponte dentária inicial. Mesmo que o dente protético não tenha sobrevivido, a ligadura de ouro remanescente fornece evidência física direta de trabalho odontológico deliberado, e não de uma disposição acidental pós-morte.

Isso torna o achado significativo além de sua raridade. Ele sugere não apenas consciência da aparência ou da função dentária, mas também acesso a materiais e técnicas que exigiriam habilidade para serem aplicados. O ouro era valioso, maleável e resistente à corrosão, propriedades que ajudam a explicar seu uso em aplicações dentárias ao longo de diferentes períodos da história.

Um procedimento doloroso, mas revelador

Rebecca Crozier, bioarqueóloga da Universidade de Aberdeen e coautora do estudo, disse ao Live Science que a aplicação da ligadura provavelmente teria causado algum desconforto durante o procedimento. Ela também afirmou que o homem provavelmente teria se adaptado à presença do arame com o tempo e possivelmente deixado de notá-lo.

Essa observação ajuda a humanizar a descoberta. A mandíbula não é apenas um artefato técnico, mas também um lembrete de que as pessoas medievais lidavam com problemas dentários crônicos de forma semelhante à de hoje: com uma mistura de necessidade, engenhosidade e tolerância a tratamentos desagradáveis. O arame preservado sugere um procedimento que pode ter sido clinicamente prático, esteticamente motivado ou ambos.

O sítio e o estudo

Os restos foram descritos em um estudo publicado em 24 de abril no British Dental Journal. St. Nicholas East Kirk, onde a mandíbula foi encontrada, provavelmente foi construído no século 11 e permaneceu em uso até a Reforma Protestante, no fim do século 16. A escala do conjunto funerário fez do local uma importante fonte de evidências sobre saúde, dieta e práticas de sepultamento na Escócia medieval.

Neste caso, a mandíbula isolada carregava uma história especialmente concentrada. A saúde bucal do homem parece bastante típica do período medieval tardio, quando as opções de cuidado odontológico eram limitadas e cáries ou doenças gengivais eram comuns. O que não era típico era a ligadura de ouro. Por isso os pesquisadores dizem que o achado representa o exemplo mais antigo conhecido desse tipo de ponte dentária na Escócia.

Por que a descoberta importa

A odontologia antiga e medieval costuma aparecer no imaginário público como extração bruta ou reparo improvisado. Achados como este complicam essa imagem. Eles mostram que algumas formas de intervenção odontológica direcionada existiam muito antes da odontologia moderna e que as pessoas buscavam soluções restauradoras, não apenas alívio de emergência.

A mandíbula de Aberdeen também contribui para um corpo mais amplo de evidências que mostra que próteses dentárias e modificação oral têm histórias profundas em muitas regiões. A ligadura preservada demonstra que a prática odontológica escocesa medieval, ao menos em casos raros, incluía tentativas cuidadosas de vencer lacunas e possivelmente substituir dentes ausentes visíveis.

É também um lembrete de que a arqueologia da saúde é muitas vezes mais vívida quando revela sofrimento e adaptação ao mesmo tempo. A mesma mandíbula registra placa, cáries e doença periodontal, mas também engenhosidade. Um dente perdido não permaneceu simplesmente como perda. Alguém interveio, usando arame de ouro, com cuidado e intenção suficientes para que a evidência sobrevivesse meio milênio.

Para os pesquisadores, isso torna o espécime valioso tanto do ponto de vista médico quanto cultural. Para os demais, oferece um encontro mais íntimo com o passado: uma pessoa, uma boca danificada e uma tentativa cuidadosamente moldada de repará-la.

Este artigo é baseado em reportagem do Live Science. Leia o artigo original.

Originally published on livescience.com