Uma pequena mudança na identificação de um cometa, uma grande mudança na biografia

Uma nova análise histórica está reabrindo um dos episódios mais incomuns da história da ciência medieval: a vida de Eilmer de Malmesbury, o monge beneditino lembrado tanto por uma tentativa inicial de planagem quanto por um suposto avistamento do cometa Halley em 1066. Segundo o resumo da Ars Technica de um artigo do historiador James Aitcheson, da Universidade de Leicester, a questão central é saber se a observação feita por Eilmer em 1066 se referia ao cometa Halley em sua passagem anterior, em 989, ou se ele havia visto outro cometa em 1018.

Essa distinção pode parecer pequena, mas traz implicações amplas. Se Eilmer realmente viu o cometa Halley em 989 quando criança e novamente em 1066 já idoso, seu ano de nascimento teria de ser, no máximo, 984. Isso o colocaria na casa dos 80 anos em 1066 e empurraria sua famosa tentativa de voo para o início do século 11, provavelmente entre 1000 e 1010. Mas se o avistamento anterior foi, na verdade, o cometa de 1018, toda a cronologia avança algumas décadas.

A fonte histórica do enigma

O relato chega por meio do historiador do século 12 William of Malmesbury, que escreveu por volta de 1125. William descreveu como Eilmer, em sua juventude, fabricou asas com madeira de salgueiro e tecido, saltou de uma torre de cerca de 150 pés na Abadia de Malmesbury e planou cerca de 600 pés antes de cair violentamente e quebrar as duas pernas. William não forneceu uma data exata para o feito, o que levou historiadores a tentar inferi-la a partir de outros detalhes do registro.

Um desses detalhes é a reação atribuída a Eilmer ao cometa em 1066. William diz que o monge, então "em idade avançada", comentou: "Já faz muito tempo que não o via." Historiadores muitas vezes tomaram essa frase como evidência de que Eilmer havia visto a aparição anterior de Halley em 989. Essa interpretação produziu uma cronologia organizada e ajudou a ancorar a datação do experimento de voo do monge.

O caso de 1018

Aitcheson argumenta que essa reconstrução se apoia em suposições talvez fortes demais. Em sua visão, Eilmer pode não estar se referindo ao cometa Halley de 989, mas ao cometa de 1018, que teria sido visível nas Ilhas Britânicas por cerca de duas semanas no outono. Se isso estiver correto, Eilmer poderia ter nascido no início da década de 1010 e ainda assim ser considerado "em idade avançada" em 1066, mesmo tendo apenas pouco mais de 50 anos.

Essa cronologia revista, por sua vez, empurraria a provável data de sua tentativa de planagem para algum momento entre as décadas de 1020 e 1040. Também enfraqueceria a especulação moderna de que o voo de Eilmer ocorreu de forma invulgarmente precoce na história da experimentação mecânica medieval. O evento continuaria extraordinário, mas sua posição no tempo se tornaria menos fixa e talvez menos mitificada.

Por que isso importa além de um único monge

O apelo da história de Eilmer sempre veio da combinação entre ousadia técnica e documentação fragmentária. Havia ali um monge que, segundo um cronista posterior, construiu asas e conseguiu por breve tempo um planeio controlado antes que uma aterrissagem dura encerrasse o experimento. Historiadores naturalmente querem saber quando isso aconteceu, não apenas para entender Eilmer, mas para situar o ato no clima intelectual mais amplo da Europa medieval.

O argumento de Aitcheson lembra que a cronologia na história pré-moderna muitas vezes depende de escolhas interpretativas minúsculas. Uma única frase, um evento celeste lembrado ou um descritor ambíguo como "em idade avançada" podem fixar uma narrativa inteira por gerações. Reexaminar esses elementos não muda apenas uma data em uma linha do tempo. Muda a forma como leitores posteriores imaginam ambição tecnológica, memória e observação no mundo medieval.

A questão do cometa também destaca como as pessoas do século 11 encaravam o céu de maneira muito diferente. Um cometa brilhante teria sido um evento público avassalador, visível em várias comunidades e interpretado por meio de enquadramentos religiosos, políticos e pessoais. O terror lembrado por Eilmer diante do cometa de 1066 ajuda a deixar isso claro. Se ele acreditava ou não que era o mesmo objeto que havia visto antes importa historicamente, mas também importa o fato de que o avistamento em si foi memorável o suficiente para ancorar uma vida inteira.

Uma história melhor por meio de afirmações mais estreitas

A força do novo argumento não está em oferecer certeza absoluta. Está em restringir a afirmação e desafiar uma suposição herdada. Em vez de tratar a interpretação de 989 como encerrada, ele reabre o arquivo de evidências e mostra que uma data de nascimento posterior é totalmente plausível. É assim que a boa revisão histórica costuma funcionar: não substituindo um mito por outro, mas devolvendo a incerteza ao lugar em que a certeza havia se tornado conveniente demais.

  • William of Malmesbury registrou a tentativa de planagem de Eilmer e seu comentário sobre o cometa.
  • Muitos historiadores ligaram o comentário à aparição de Halley em 989.
  • James Aitcheson argumenta que Eilmer pode ter visto em vez disso o cometa de 1018.
  • Se for assim, a idade de Eilmer e a provável data de seu voo avançam algumas décadas.

Este artigo é baseado na reportagem da Ars Technica. Leia o artigo original.

Originally published on arstechnica.com