A capacidade de ATACMS está chegando, mas não em ritmo de crise
A Rheinmetall diz que os Estados Unidos e seus parceiros não devem esperar um aumento rápido na produção dos Army Tactical Missile Systems, mesmo com a pressão crescente para reconstruir os estoques de armas de precisão de longo alcance. Em entrevista publicada na sexta-feira, o CEO Armin Papperger afirmou que o esforço de produção planejado com a Lockheed Martin pode, eventualmente, contribuir para recompor os arsenais dos EUA, mas que o processo levará substancialmente mais de dois anos.
É uma admissão significativa em um momento em que a profundidade dos estoques se tornou uma questão estratégica, e não apenas uma preocupação industrial de bastidores. O comentário liga consumo no campo de batalha, prontidão industrial e divisão de encargos entre aliados em uma única frase: há demanda, o apoio governamental parece forte e a base fabril ainda não consegue operar em velocidade de guerra.
Segundo a reportagem, a Rheinmetall assinou no mês passado um memorando de entendimento com a Lockheed Martin para produzir ATACMS em conjunto na fábrica da empresa em Unterluess, no norte da Alemanha. As instalações necessárias para esse esforço devem ser montadas no próximo ano. Papperger disse que, no longo prazo, haverá capacidade suficiente para ajudar a reabastecer os estoques militares dos EUA esgotados pelo conflito envolvendo o Irã, mas acrescentou que isso não acontecerá rapidamente.
Por que o prazo importa
O timing importa porque contraria a suposição comum de que gastos com defesa se convertem automaticamente em produção no curto prazo. Os governos podem aprovar orçamentos, fazer encomendas e anunciar parcerias, mas a produção de mísseis depende de restrições mais duras: ferramental especializado, mão de obra qualificada, cadeias de suprimento aprovadas, liberação regulatória e tempo para erguer instalações capazes de entregar com consistência em escala.
A reportagem da Reuters citada no texto de origem informou que o Exército dos EUA usou grande parte de seu estoque global de mísseis de precisão de longo alcance durante a guerra de cinco meses com o Irã. Isso acentuou a preocupação com a prontidão para crises futuras. O presidente Donald Trump, falando na quinta-feira, teria minimizado o risco mais amplo ao dizer que os EUA tinham um suprimento quase ilimitado de algumas munições, embora reconhecesse estoques mais apertados em outras. Ele também afirmou que as empresas de defesa dos EUA estavam expandindo a capacidade.
A mensagem da Rheinmetall adiciona um choque de realidade industrial. Mesmo que novas linhas sejam financiadas hoje, os benefícios podem não aparecer nos prazos que os planejadores querem. Isso cria uma lacuna entre a demanda estratégica e a oferta industrial, especialmente para sistemas que dependem de componentes complexos e processos de produção altamente controlados.
A indústria de defesa europeia entra na história de recomposição dos EUA
A joint venture planejada entre Rheinmetall e Lockheed também chama atenção porque reflete uma integração mais profunda da manufatura europeia em um mercado de mísseis moldado há muito tempo pelas exigências dos EUA. A Rheinmetall é mais conhecida como a maior fabricante de munições da Europa, e a empresa tem se expandido agressivamente à medida que governos em todo o continente aumentam os gastos militares em resposta às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e à pressão contínua dos EUA para que a Europa assuma mais responsabilidade pela segurança regional.
Nesse contexto, o projeto ATACMS na Alemanha é mais do que um programa de mísseis. Ele mostra como a política industrial aliada está passando da discussão para a coprodução. Um sistema concebido em torno da demanda militar dos EUA pode, cada vez mais, depender de fábricas europeias para apoiar tanto a recomposição americana quanto as vendas internacionais.
Papperger disse que o empreendimento ainda precisa de aprovação, mas descreveu o processo como bastante avançado e apoiado pelo governo dos EUA. Ele também afirmou que os parceiros pretendem mirar o mercado global de mísseis ATACMS e previu demanda sustentada, dizendo que haverá mercado para mísseis pelos próximos 15 anos.
Essa perspectiva está alinhada com a direção mais ampla do setor de defesa. As forças armadas estão consumindo armas de precisão mais rápido do que muitos sistemas de compras foram desenhados para repor. Ao mesmo tempo, os países tentam manter reservas mais profundas para dissuasão. O resultado é um mercado em que os compradores já não planejam apenas picos curtos de produção. Eles planejam uma demanda de escala decenal.
Receita depois, demanda agora
Um dos indicadores mais claros do ritmo da indústria é o calendário de receita. A Rheinmetall espera que a joint venture gere sua primeira receita em 2028. Isso não significa que nada aconteça antes, mas mostra que o impacto comercial da urgência atual provavelmente só virá depois de mais alguns anos de preparação, aprovação e construção industrial.
Para formuladores de políticas, esse é o problema central. Uma escassez pode surgir rapidamente depois que as operações de combate se intensificam, mas a recuperação muitas vezes atravessa vários ciclos orçamentários. O sistema político reage em meses. O sistema industrial reage em anos.
A implicação é que os ministérios da defesa talvez precisem pensar menos em reposição emergencial e mais em capacidade pré-crise. Se a produção não puder ser expandida rápido o bastante depois que os estoques forem drenados, a resiliência ao choque precisa ser construída antes do próximo conflito. Isso pode significar pedidos maiores e permanentes, fabricação mais distribuída geograficamente e compromissos de mais longo prazo que deem confiança aos fornecedores para investir.
Um impulso mais amplo de expansão
O projeto ATACMS se insere no esforço mais amplo da Rheinmetall para crescer em vários segmentos de defesa. Papperger disse que a empresa continua interessada em adquirir o negócio de caminhões militares Iveco da Leonardo, da Itália, embora futuras negociações dependam do novo CEO da Leonardo, Lorenzo Mariani. Ele disse ter um acordo de palavra com o antecessor de Mariani e que precisará ver se os termos revisados continuam atraentes.
A Rheinmetall também espera um contrato multibilionário em euros para veículos blindados Boxer até o fim do ano, segundo a reportagem. Esse detalhe importa porque mostra que a empresa está conduzindo a expansão de mísseis ao mesmo tempo em que aproveita outras grandes oportunidades em sistemas terrestres, enquanto o ciclo de rearmamento da Europa segue acelerando.
Ao mesmo tempo, a empresa recentemente reduziu sua projeção de vendas após a Alemanha cancelar o programa da fragata F126. Isso lembra que o crescimento da defesa não é linear. As empresas podem enfrentar demanda em disparada em algumas áreas e recuos bruscos em outras, tornando a alocação de capital e o planejamento de produção mais complexos do que sugerem os números de gastos nas manchetes.
A conclusão estratégica
O ponto mais importante dos comentários da Rheinmetall não é apenas que a demanda por mísseis é alta. Isso já estava claro havia tempo. O ponto mais relevante é que a base industrial ainda parece incapaz de transformar urgência em produção imediata, mesmo com uma grande parceria transatlântica já em andamento.
Essa lacuna vai moldar o planejamento militar muito além deste programa específico. As armas de precisão agora são centrais para a dissuasão, o gerenciamento de escalada e a doutrina de ataque de longo alcance. Se a recomposição levar mais de dois anos, então a política de estoques, a coordenação entre aliados e a estratégia de compras terão de se adaptar a um relógio industrial mais lento.
Na prática, a Rheinmetall está dizendo que o mercado é durável, o apoio político existe e a capacidade pode ser construída. Mas nada disso elimina a restrição que os governos menos podem se dar ao luxo de ignorar: o tempo.
Este artigo é baseado em reportagem da Defense News. Leia o artigo original.
Originally published on defensenews.com






