A infraestrutura hídrica está indo para o centro do risco regional

As usinas de dessalinização há muito são infraestrutura essencial no Oriente Médio, mas eventos recentes estão expondo o quanto essa dependência se tornou vulnerável. Uma nova análise da MIT Technology Review argumenta que o setor agora enfrenta uma ameaça dupla: interrupção direta pela escalada do conflito e pressão crescente do calor e do estresse hídrico impulsionados pelo clima.

A preocupação imediata é geopolítica. O relatório de origem diz que o ministro das Relações Exteriores do Irã acusou os Estados Unidos, no início de março, de atacar uma usina de dessalinização na ilha de Qeshm, no estreito de Ormuz, e de interromper o abastecimento de água para quase 30 vilarejos, uma acusação negada por Washington. Nas semanas seguintes, Bahrein e Kuwait também relataram danos a instalações de dessalinização e culparam o Irã, que negou responsabilidade. O presidente Donald Trump então ameaçou destruir “possivelmente todas as usinas de dessalinização” no Irã se o estreito de Ormuz não fosse reaberto.

Esses episódios ressaltam um fato estratégico duro: em uma região em que muitos países dependem fortemente da dessalinização para água potável, essas instalações não são serviços periféricos. São linhas vitais. E, quando linhas vitais se tornam pontos de pressão visíveis em um conflito, sua vulnerabilidade passa a ser tanto uma questão humanitária quanto de infraestrutura.

Por que a dessalinização é tão importante

O Oriente Médio usa tecnologia de dessalinização há mais de um século, com a implantação em larga escala acelerada nas décadas de 1960 e 1970. O objetivo básico é simples: transformar água do mar em água doce para residências, agricultura e indústria. Mas a escala da dependência é o que torna essa tecnologia tão relevante.

A fonte cita Liz Saccoccia, do World Resources Institute, que diz que 83% do Oriente Médio já está sob estresse hídrico extremamente alto e que projeções sugerem que o número pode subir para cerca de 100% até 2050. Nesse contexto, a dessalinização não é uma tecnologia suplementar. Para muitos países do Golfo, ela é fundamental para a vida cotidiana.

Essa dependência também significa que qualquer interrupção tem consequências imediatas. Uma usina de energia danificada é grave; uma usina de dessalinização danificada em um ambiente de alto estresse hídrico pode afetar rapidamente água potável, saneamento e o funcionamento básico das cidades. Em climas desérticos, onde os sistemas de energia e água estão intimamente interligados, os efeitos em cascata podem ser severos.

Uma solução intensiva em energia com suas próprias trocas

O relatório descreve as duas principais abordagens de dessalinização. As usinas térmicas usam calor para evaporar a água e depois condensar o vapor em água doce. Já os sistemas de membrana, como a osmose reversa, forçam a água a passar por poros minúsculos que bloqueiam o sal. Historicamente, a dessalinização inicial no Oriente Médio dependia fortemente de métodos térmicos movidos a combustíveis fósseis, uma abordagem descrita pelo relatório como extremamente intensiva em energia.

Isso importa por dois motivos. Primeiro, o uso de energia liga a produção de água ao fornecimento de combustível, à geração de eletricidade e à estabilidade mais ampla da infraestrutura. Segundo, complica o quadro climático. A região depende da dessalinização em parte por causa da escassez de água, mas algumas formas de dessalinização também foram tão intensivas em energia que aprofundaram o desafio de emissões associado às mudanças climáticas.

A combinação de tecnologias evoluiu, mas o problema estrutural permanece: sistemas vitais para a adaptação também podem ficar expostos a choques climáticos e energéticos. Calor extremo, padrões climáticos em mudança e demanda crescente não apenas aumentam a necessidade de água doce. Eles também colocam mais pressão sobre a infraestrutura necessária para produzi-la.

O conflito muda o significado da infraestrutura crítica

As ameaças recentes e os ataques relatados mostram que as usinas de dessalinização agora são tratadas não apenas como serviços civis, mas como ativos estratégicos. Essa reclassificação tem consequências de longo alcance. Quando as partes de um conflito veem sistemas de água como moedas de troca ou pontos de pressão, o perfil de risco de todo o setor muda.

O relatório de origem coloca o momento atual dentro de uma tendência mais longa. As mudanças climáticas estão intensificando a vulnerabilidade de base, enquanto a guerra expõe o quão concentrados e passíveis de ataque alguns sistemas de água são. Grandes usinas centralizadas podem abastecer populações urbanas com eficiência, mas a centralização também cria pontos únicos de falha.

Isso levanta questões políticas difíceis para governos da região. Eles devem investir mais em reforço físico, redundância e sistemas distribuídos? O planejamento de energia e água deve ser mais integrado? E o planejamento de resiliência consegue acompanhar um ambiente de ameaças em que tanto o clima quanto a guerra ficam mais severos?

Um alerta além do conflito atual

O significado desta história vai além da última troca de ameaças envolvendo Irã, Estados Unidos, Bahrein e Kuwait. Em todo o mundo, o planejamento de infraestrutura crítica está sendo remodelado pela percepção de que sistemas de adaptação climática podem se tornar alvos de conflito. Tratamento de água, controle de enchentes, redes elétricas e infraestrutura de resfriamento já não são domínios de política separados. Eles passam cada vez mais a fazer parte da mesma conversa de segurança.

No Oriente Médio, a dessalinização está no centro dessa convergência. A tecnologia torna possível a vida urbana moderna em alguns dos ambientes mais carentes de água do mundo. Mas essa mesma importância torna difícil protegê-la por completo, especialmente quando as tensões regionais aumentam e as mudanças climáticas continuam apertando a margem de erro.

A mensagem da nova análise não é que a dessalinização está falhando. É que depender dela sem resiliência suficiente cria outro tipo de fragilidade. À medida que o estresse hídrico se intensifica e o conflito se espalha por sistemas críticos, a questão já não é apenas como fazer água doce a partir do mar. É como manter essa capacidade viva quando tudo ao redor se torna menos estável.

Este artigo é baseado na cobertura da MIT Technology Review. Leia o artigo original.

Originally published on technologyreview.com