Introdução
O câncer de mama triplo-negativo (CMTN) é uma forma particularmente agressiva de câncer de mama, responsável por 10–20% de todos os casos. Caracteriza-se pela ausência de expressão de receptor de estrogênio, receptor de progesterona e HER2, o que limita a eficácia das terapias hormonais e dos agentes direcionados ao HER2. Pacientes com CMTN avançado têm prognóstico ruim, e há uma necessidade premente de tratamentos de primeira linha mais eficazes. Um estudo recente de fase 2 publicado na Nature Medicine avalia a combinação de ivonescimab, um anticorpo biespecífico PD-1/VEGF, com quimioterapia nessa população de pacientes. Os resultados são encorajadores, demonstrando alta taxa de resposta objetiva e perfil de segurança gerenciável.
Desenho do Estudo e População de Pacientes
Este estudo de fase 2, aberto, multicêntrico, de braço único, inscreveu 36 pacientes do sexo feminino com CMTN localmente avançado irressecável ou metastático que não haviam recebido terapia sistêmica prévia para doença avançada. O estudo foi conduzido em vários locais, refletindo uma população de pacientes do mundo real. As pacientes elegíveis receberam ivonescimab na dose de 20 mg/kg por via intravenosa a cada duas semanas, combinado com paclitaxel (90 mg/m²) ou nab-paclitaxel (100 mg/m²) administrados nos dias 1, 8 e 15 de cada ciclo de 4 semanas. Os desfechos primários foram segurança e taxa de resposta objetiva (TRO) avaliada pelo investigador de acordo com os critérios RECIST v1.1.
Resultados de Eficácia
Na data de corte de dados em 15 de julho de 2025, a duração mediana do acompanhamento foi de 22,1 meses. Entre as 35 pacientes avaliáveis para eficácia, a taxa de resposta objetiva foi impressionante de 80,0% (intervalo de confiança de 95%: 63,1–91,6). Isso incluiu 2 pacientes (5,7%) que alcançaram resposta completa e 26 pacientes (74,3%) que alcançaram resposta parcial. Esses resultados sugerem que a combinação de ivonescimab e quimioterapia tem atividade antitumoral substancial nessa população de difícil tratamento. A alta taxa de resposta é particularmente notável, dado que essas pacientes não haviam recebido terapia sistêmica prévia para doença avançada.
Perfil de Segurança
Todas as 36 pacientes experimentaram pelo menos um evento adverso relacionado ao tratamento (EART), com EARTs de grau ≥3 ocorrendo em 21 pacientes (58,3%). Importante: nenhuma morte relacionada ao tratamento foi relatada. Eventos adversos relacionados ao sistema imunológico (EARI) ocorreram em 15 pacientes (41,7%), com eventos de grau ≥3 em 4 pacientes (11,1%). O perfil de segurança parece consistente com o que se sabe sobre inibidores de PD-1 e inibidores de VEGF, e a combinação foi geralmente gerenciável. A incidência de eventos adversos de alto grau é comparável a outras combinações de imunoterapia-quimioterapia no CMTN, e a ausência de mortes relacionadas ao tratamento é tranquilizadora.
Implicações para o Tratamento
O câncer de mama triplo-negativo tem sido historicamente desafiador de tratar, especialmente no cenário metastático. A introdução de inibidores de checkpoint imunológico melhorou os resultados para alguns pacientes, mas ainda há necessidade de respostas mais eficazes e duráveis. O anticorpo biespecífico ivonescimab, que tem como alvo simultaneamente PD-1 e VEGF, oferece uma abordagem inovadora ao potencialmente aumentar a imunidade antitumoral enquanto também inibe a angiogênese. A alta taxa de resposta observada neste estudo sugere que essa combinação pode se tornar uma opção promissora de primeira linha para pacientes com CMTN avançado.
No entanto, é importante notar que este é um estudo de fase 2 com tamanho amostral relativamente pequeno. Os resultados precisam ser confirmados em estudos maiores, randomizados de fase 3, para estabelecer a eficácia e segurança em relação ao padrão de tratamento. O estudo está registrado no ClinicalTrials.gov sob o identificador NCT05227664, e investigação adicional está em andamento.
Conclusão
Ivonescimab combinado com quimioterapia demonstra atividade antitumoral encorajadora como terapia de primeira linha para pacientes com câncer de mama triplo-negativo avançado não tratado anteriormente. A taxa de resposta objetiva de 80% e o perfil de segurança gerenciável apoiam o desenvolvimento adicional desse regime. Se confirmado em estudos de fase 3, essa combinação pode oferecer um novo padrão de tratamento para essa população de pacientes, potencialmente melhorando os resultados em uma doença com prognóstico historicamente ruim.
Este artigo é baseado em reportagem da Nature Medicine. Leia o artigo original.
Originally published on nature.com








