O avanço da energia solar no Paquistão está mudando a forma como o país usa energia

A rápida expansão da energia solar distribuída no Paquistão está fazendo mais do que reduzir o uso de combustível ou aliviar a pressão sobre a rede. Segundo um novo relatório da Ember e da Renewables First, o boom de energia solar em telhados e por trás do medidor no país foi grande o bastante para elevar fortemente a demanda total por eletricidade em apenas dois anos. Isso importa porque muda a narrativa habitual sobre adoção solar em mercados emergentes: em vez de simplesmente substituir o consumo existente, a energia solar distribuída no Paquistão parece estar liberando uma demanda que vinha sendo reprimida havia muito tempo.

O relatório argumenta que as estatísticas oficiais não captaram totalmente a dimensão da mudança porque, em grande parte, ignoram a energia solar distribuída. Ao rebasear as estatísticas energéticas do Paquistão para incluir essa contribuição ausente, os autores concluem que o sistema energético do país passou por uma mudança estrutural significativa. Em sua leitura, a energia solar distribuída tornou-se um grande motor de eletrificação, aproximando o Paquistão da média global da parcela da demanda final de energia atendida por eletricidade.

O que o relatório diz que mudou entre FY23 e FY25

O número mais impressionante do relatório é o crescimento da demanda total por eletricidade. Do ano fiscal de 2023 ao ano fiscal de 2025, a demanda total por eletricidade no Paquistão subiu 21%, o equivalente a 33 terawatts-hora. O relatório afirma que a geração solar distribuída aumentou 36 terawatts-hora no mesmo período, levando seus autores a concluir que todo o aumento da demanda por eletricidade foi, na prática, impulsionado pela expansão solar.

Essa é uma distinção importante. Em muitas transições energéticas, ganhos de eficiência ou a troca de combustível podem reduzir a demanda da rede mesmo com a expansão da geração limpa. Aqui, a tese é diferente: a energia solar distribuída ajudou a criar as condições para que pessoas e empresas usassem mais eletricidade no total. Em outras palavras, a solar não estava apenas deslocando outras fontes. Estava viabilizando consumo adicional.

O relatório diz que essa mudança elevou a taxa de eletrificação do Paquistão para 21,7% no FY25, pouco abaixo da média global de 22,0%. No mesmo período, o uso de energia não elétrica subiu apenas 2%. Esse contraste sustenta a conclusão mais ampla dos autores de que a energia solar distribuída atendeu quase todo o crescimento da demanda energética do país, e não apenas o crescimento da demanda por eletricidade.

Por que maior demanda por eletricidade pode ser sinal de progresso

O aumento da demanda por eletricidade costuma ser visto como um sinal de alerta para distribuidoras ou planejadores de combustíveis, mas, neste caso, o relatório o enquadra como evidência de que uma demanda reprimida finalmente está sendo atendida. Em economias em que preços altos, fornecimento instável ou infraestrutura fraca restringem o acesso à energia, mais uso de eletricidade pode refletir ganhos de produtividade, conforto e resiliência.

A interpretação do relatório é que o Paquistão tinha necessidades energéticas substanciais não atendidas em vários setores. A velocidade de implantação e a queda de custo da energia solar permitiram que famílias, fazendas e empresas aumentassem o uso de energia de maneiras que os sistemas tradicionais não haviam conseguido suportar. Isso torna a história menos sobre substituição tecnológica isolada e mais sobre a relação entre geração distribuída e comportamento econômico.

Também sugere que metas de eletrificação podem ser mais fáceis de alcançar quando a nova oferta pode ser implantada perto de onde a energia é consumida. Isso é especialmente relevante para países em que a geração centralizada, as importações de combustível e os gargalos da rede tornaram a expansão convencional da eletricidade lenta demais ou cara demais.

Setor por setor, o relatório vê efeitos amplos

O relatório afirma que a energia solar distribuída ajudou a eletrificar praticamente todas as partes da economia do Paquistão. Na agricultura, diz que a solar deslocou o diesel e parte da eletricidade da rede, alterou a economia da irrigação e permitiu que os agricultores bombeassem mais água do que antes. Isso aponta para uma mudança potencialmente significativa na forma como as fazendas administram custos operacionais e o uso de equipamentos.

Na indústria, o relatório diz que a solar preencheu uma lacuna criada pelo colapso do gás e do carvão cativos, oferecendo às empresas uma vantagem de preço. Se essa conclusão se sustentar em termos amplos, isso significaria que a geração distribuída não é apenas um recurso de backup para fábricas, mas uma parte cada vez mais central da estratégia energética industrial.

Para as famílias, o relatório diz que a solar liberou consumo de eletricidade que havia sido reprimido por tarifas altas e racionamento. Ele aponta especificamente o crescimento no uso de eletrodomésticos, incluindo refrigeração. Em um clima quente, o maior acesso à refrigeração pode ter implicações econômicas e de saúde diretas, ainda que o relatório em si se concentre principalmente em estatísticas energéticas e não nesses efeitos posteriores.

Já os usuários comerciais são descritos como tendo absorvido o crescimento da demanda por meio da solar sem exposição proporcional às tarifas da rede. Isso pode ajudar a explicar por que a energia solar distribuída se espalhou tão rapidamente: ela oferece não apenas resiliência, mas uma forma de lidar com a volatilidade de custos em uma economia em que os preços da energia têm sido uma preocupação persistente.

O transporte segue como a próxima grande abertura

O relatório afirma que o transporte, até agora, praticamente não foi tocado por essa onda de eletrificação. Isso o torna a próxima grande fronteira se a mudança liderada pela energia solar no Paquistão continuar. Eletrificar o transporte exigiria mais do que geração em telhados, incluindo veículos, infraestrutura de recarga e políticas de apoio, mas a mensagem mais ampla do relatório é que uma base já está sendo construída pelo aumento do uso de eletricidade em outras partes da economia.

O momento também importa. O relatório foi divulgado pouco depois do lançamento da campanha Electrify Now, na qual grupos da sociedade civil pedem que os ministros de energia acelerem o avanço rumo a uma taxa de eletrificação de 35% até 2035, conforme delineado na COP31 Action Agenda. As novas descobertas oferecem a esses defensores um argumento empírico: uma eletrificação mais rápida talvez não seja uma aspiração distante se a energia solar distribuída já estiver puxando a demanda para cima em escala.

Por que isso importa além do Paquistão

As implicações do relatório vão além de um único mercado nacional. Muitas economias emergentes enfrentam a mesma combinação de redes frágeis, combustíveis fósseis caros, serviço pouco confiável e demanda latente. O caso do Paquistão, como apresentado aqui, sugere que a energia solar distribuída barata e rapidamente implantável pode fazer mais do que descarbonizar o uso existente. Ela pode ampliar o acesso a serviços de energia e acelerar a eletrificação sem esperar que todos os gargalos da infraestrutura centralizada sejam resolvidos primeiro.

Isso não responde a todas as perguntas. O trecho fornecido não detalha estruturas de financiamento, desafios de integração à rede, variações regionais ou quão duradouro será o aumento da demanda ao longo do tempo. Mas, com base nas evidências citadas, a direção é clara: a energia solar distribuída se tornou uma força importante na economia energética do Paquistão, e seu impacto é melhor entendido como criação de demanda tanto quanto substituição de combustíveis.

Se essa interpretação se mostrar robusta, o Paquistão oferece um exemplo instrutivo para formuladores de políticas em todo o mundo em desenvolvimento. A lição central não é simplesmente que a energia solar pode ser construída rapidamente. É que, quando a eletricidade se torna mais disponível e acessível, as pessoas tendem a usá-la mais, e isso pode remodelar uma economia mais rapidamente do que os dados oficiais revelam inicialmente.

Este artigo é baseado em reportagem da CleanTechnica. Leia o artigo original.

Originally published on cleantechnica.com