Um retorno político sem um boom de construção equivalente

A energia nuclear voltou ao centro dos debates sobre clima e segurança energética, mas a retomada prática do setor é muito mais restrita do que as manchetes sugerem. Um novo comentário no Energy Monitor argumenta que o que parece ser um renascimento nuclear global é, em termos de construção, sobretudo um fenômeno político e não uma recuperação industrial ampla.

A razão para o interesse renovado é fácil de entender. Os governos estão lutando para cumprir metas climáticas, a segurança energética continua sendo uma grande preocupação e a energia nuclear mantém um argumento forte de baixas emissões. O artigo observa que as emissões de ciclo de vida da energia nuclear são de cerca de 12 gramas de dióxido de carbono por quilowatt-hora, colocando-a entre as fontes de eletricidade que menos emitem. Isso ajudou a impulsionar uma onda de compromissos públicos e sinalizações corporativas em torno da tecnologia.

Esses sinais se tornaram mais visíveis nos últimos anos. Vinte e cinco países apoiaram uma declaração na COP28, e esse total depois subiu para 33. A taxonomia da União Europeia inclui energia nuclear sob condições específicas. A Microsoft assinou um acordo ligado ao reinício planejado da Unidade 1 de Three Mile Island. Grandes instituições financeiras também passaram a adotar a linguagem de uma nova era atômica.

Mas a questão central não é se existe entusiasmo político. Existe. A pergunta mais difícil é quem está realmente construindo reatores, onde eles estão sendo construídos e com que velocidade esses projetos avançam. Nesse ponto, o cenário é bem menos favorável para os países que mais falam em retomada.

Onde a nova construção realmente acontece

Segundo o comentário, 97% dos inícios de construção de reatores no mundo entre 2020 e 2024 ocorreram na China e na Rússia. Esse dado reposiciona de forma contundente o debate atual. Ele sugere que os países e empresas mais associados à narrativa ocidental de renascimento nuclear não são, pelo menos por enquanto, os que estão transformando ambição em novos canteiros.

O artigo vai além e afirma que grandes fornecedores ocidentais, como Westinghouse e EDF, registraram zero novos inícios de construção nesse período. Se essa contagem se mantiver, então a lacuna entre declarações políticas e entrega industrial não é um descompasso de curto prazo. É evidência de um problema estrutural mais profundo.

O texto atribui esse problema à perda de capacidade industrial, a fracassos caros de projetos pioneiros e ao peso regulatório que se intensificou após Fukushima. Essas não são limitações que desaparecem porque governos emitem declarações favoráveis. São restrições de longo prazo envolvendo cadeias de suprimento, mão de obra qualificada, licenciamento, financiamento e disciplina na execução de projetos.

Em outras palavras, a história nuclear atual não é apenas sobre subinvestimento. É também sobre atrofia institucional. Países que se afastaram da construção de reatores por anos ou décadas não conseguem reconstruir instantaneamente a máquina industrial necessária para entregar grandes usinas no prazo e em escala.