A tecnologia de anúncios virou um canal de entrega de spyware
Sistemas de publicidade online podem ser usados para traçar perfis e atingir dispositivos com spyware, segundo pesquisadores do Citizen Lab, da Universidade de Toronto. A investigação se concentra na empresa israelense Discover-Tech, que se descreve como uma agência especializada em publicidade digital.
O Citizen Lab afirma que a Discover-Tech opera uma plataforma chamada Controlium. Os pesquisadores alegam que ela permite traçar perfis e desanonimizar usuários em massa e facilitar a entrega de spyware mercenário de terceiros a alvos selecionados.
Uma pessoa pode receber um anúncio aparentemente comum, como o de um serviço móvel ou jogo digital. O processo pode revelar informações identificadoras, incluindo um endereço de protocolo de internet; se a pessoa já tiver sido escolhida para vigilância, um código malicioso poderá ser enviado ao dispositivo.
Por que o “zero clique” importa
Muitos alertas de segurança recomendam não clicar em links suspeitos nem baixar arquivos desconhecidos. Uma infecção zero-click muda essa lógica: o comprometimento ocorre sem ação ou conhecimento do usuário. Segundo o Citizen Lab, o processo pode levar apenas segundos.
Anúncios digitais são distribuídos em enorme escala e envolvem intermediários, trocas de dados e sistemas automatizados de leilão. Essa infraestrutura pode identificar possíveis alvos entre milhões de pessoas e depois encaminhar uma carga maliciosa a poucos selecionados.
Os pesquisadores descreveram o modelo como uma forma de transformar a publicidade em arma: perfis amplos de milhões de usuários podem coexistir com infecções altamente seletivas. A preocupação não é apenas que um anúncio enganoso carregue malware, mas que os sistemas de distribuição ajudem a localizar dispositivos específicos.
Dispositivos da Al Jazeera estariam entre os alvos
O Citizen Lab disse acreditar que dezenas de dispositivos da emissora catariana Al Jazeera foram comprometidos por spyware entregue via anúncios da Discover-Tech. Isso não significa que todo usuário que recebeu um anúncio tenha sido infectado; a alegação é que a publicidade forneceu uma oportunidade inicial de coletar informações, seguida de ataques contra alvos escolhidos.

O Citizen Lab afirma que milhões de usuários no mundo receberam anúncios da Discover-Tech desde 2024, inclusive no Iêmen, Brasil, México e Tchéquia. Uma pesquisa da Confiant também indicou anúncios em redes associadas a órgãos governamentais da Europa e dos Estados Unidos, à ONU, à Otan, ao Tribunal Penal Internacional e à Agência Internacional de Energia Atômica.
Isso não significa que todos esses usuários tenham sido infectados, mas mostra a amplitude do ambiente de distribuição em que o suposto direcionamento poderia ocorrer.
Um problema maior que uma única campanha
O caso cria um problema de segurança para plataformas de publicidade, editores e organizações que dependem de dispositivos conectados. Os anúncios são incorporados a sites e aplicativos e chegam por cadeias de fornecimento complexas.
O pesquisador Wolfie Christl, do Citizen Lab, disse ser alarmante que grandes fornecedores de publicidade e organizações aparentemente não tenham detectado ou interrompido as operações maliciosas alegadas durante anos. Se o comprometimento for realmente zero-click, a orientação para evitar interações suspeitas oferece proteção limitada.
As descobertas pressionam o setor de tecnologia a fiscalizar melhor intermediários, dados coletados e códigos entregues pelos anúncios.
O que ainda precisa ser esclarecido
As conclusões são alegações de pesquisadores e devem ser avaliadas com evidências técnicas e respostas das empresas envolvidas. Ainda assim, oferecem um alerta sobre a convergência entre a criação de perfis publicitários e o spyware comercial: sistemas feitos para alcançar audiências também podem identificar e atingir indivíduos silenciosamente.
Este artigo baseia-se em reportagem do The Guardian. Leia o artigo original.
Originally published on theguardian.com





