A AFL australiana orientou sua parceira oficial de apostas, Sportsbet, a parar de usar jogadores de destaque em conteúdo para redes sociais gerado por IA sem autorização e a remover os vídeos existentes, segundo uma reportagem do The Guardian Australia.

A intervenção coloca uma importante liga esportiva, uma empresa de apostas e um sindicato de jogadores no centro de uma disputa em rápida evolução sobre mídia sintética, direitos comerciais de imagem e promoção de apostas. Ela ocorre também quando novas regras federais que proíbem atletas de aparecer em anúncios de apostas devem entrar em vigor no próximo ano.

Vídeos removidos após preocupações

A Sportsbet havia publicado vídeos gerados por IA e sujeitos a restrição de idade, mostrando figuras da AFL pronunciando frases alteradas de filmes, programas de televisão e discursos em resposta a eventos reais. A empresa removeu os vídeos de sua página no Instagram na tarde de terça-feira, depois de ser contatada pelo The Guardian Australia.

Um vídeo mostrava o ex-jogador campeão do Brisbane Lions Lachie Neale recebendo um prêmio em seu novo clube, o Collingwood. O clipe manipulado fazia com que ele interpretasse uma frase associada ao discurso do rapper Snoop Dogg na Calçada da Fama de Hollywood em 2018. Outro vídeo mostrava o jogador do Brisbane Lions Will Ashcroft dizendo uma frase do drama televisivo Ozark em um contexto esportivo.

A reportagem afirmou que a Sportsbet também havia criado conteúdo de IA usando imagens do técnico do Hawthorn, Sam Mitchell, e do ex-técnico do North Melbourne, Alastair Clarkson. O material pretendia ser conteúdo humorístico para redes sociais, mas a Associação de Jogadores da AFL disse estar preocupada com seu uso.

Direitos de imagem e consentimento

A Associação de Jogadores da AFL, que representa os atletas, escreveu à liga no fim da semana anterior. A entidade argumentou que os vídeos violavam um acordo coletivo que limita como as imagens dos jogadores podem ser usadas pelos parceiros comerciais da liga.

Essa questão é diferente de saber se um clipe gerado é tecnicamente convincente ou está claramente identificado. A reclamação central descrita na reportagem é que atletas reconhecíveis foram usados em conteúdo comercial sem autorização. A IA torna essa produção mais fácil e rápida, mas não elimina as questões básicas de consentimento, compensação e uso permitido da imagem de uma pessoa.

Por isso, a orientação da AFL à parceira é significativa para além dos clipes individuais. Ela mostra um detentor de direitos respondendo à mídia sintética como uma questão de governança comercial, e não apenas como um formato incomum de rede social.

O contexto das apostas aumenta os riscos

Segundo a reportagem, os vídeos da Sportsbet foram concebidos para aumentar o engajamento nas redes sociais e atrair públicos e clientes. O uso de jogadores é particularmente sensível porque a empresa é uma operadora de apostas e porque a legislação federal proibirá atletas em anúncios de apostas quando as novas regras começarem a vigorar no próximo ano.

O material tinha restrição de idade, mas uma barreira etária não resolve a preocupação mais ampla. A imagem de um jogador pode transmitir autoridade e familiaridade, enquanto a fala gerada por IA pode fazer uma pessoa parecer dizer mensagens que nunca gravou ou aprovou. Neste caso, o conteúdo teria feito atletas parecerem dizer frases da cultura popular aplicadas a acontecimentos atuais da AFL.

A Sportsbet afirmou que estava trabalhando com a AFL sobre o uso em evolução da IA em seu conteúdo. Essa formulação reconhece que as práticas de mídia sintética ainda estão se desenvolvendo, enquanto a instrução da AFL estabelece um limite imediato para este caso: não apresentar jogadores em conteúdo gerado desse tipo sem autorização.

Um teste para as parcerias esportivas

As ligas esportivas dependem cada vez mais de patrocínio e engajamento digital, enquanto os atletas dependem de acordos coletivos e proteções de direitos de imagem para controlar os usos comerciais de suas identidades. A IA generativa intensifica essa tensão porque pode criar novos vídeos e áudios a baixo custo, sem organizar uma sessão tradicional de gravação.

A disputa não estabelece uma regra universal para todas as representações de IA no esporte. No entanto, oferece um exemplo concreto de como ligas e representantes de jogadores podem reagir: verificar se os acordos existentes abrangem usos gerados, exigir consentimento e intervir quando o conteúdo de um parceiro ultrapassar esses limites.

Ela também destaca a diferença entre usar material promocional autorizado de um jogador e gerar uma nova performance que o jogador não forneceu. Para os torcedores, a distinção pode ser obscurecida por um breve clipe nas redes sociais. Para jogadores, sindicatos e parceiros comerciais, ela pode ser decisiva.

O que acontece agora

O resultado imediato é a remoção do conteúdo identificado e uma orientação da AFL para interromper a prática. O resultado de longo prazo dependerá de como a liga, a Sportsbet e a associação de jogadores definirão o uso aceitável da IA em seus acordos, especialmente quando entrarem em vigor as futuras restrições à publicidade de apostas.

Por enquanto, o episódio indica que representações sintéticas de atletas dificilmente serão tratadas como um espaço vazio do ponto de vista regulatório ou contratual. Em um contexto comercial ligado a apostas, a combinação da imagem de um atleta, da fala gerada e do alcance promocional provocou uma resposta clara da liga e do sindicato de jogadores.

Este artigo é baseado em reportagem do The Guardian. Leia o artigo original.

Originally published on theguardian.com