O entusiasmo com IA no trabalho está se dividindo por classe, função e dados demográficos

À medida que a inteligência artificial se torna mais incorporada ao trabalho cotidiano, as atitudes dos funcionários parecem estar indo na direção oposta à retórica dos executivos. Uma análise baseada no Glassdoor citada pelo The Decoder sugere que o sentimento positivo sobre IA entre trabalhadores americanos caiu drasticamente desde 2019, enquanto os comentários negativos passaram a predominar.

A mudança é notável não apenas porque a IA continua sendo uma das narrativas de negócios dominantes de 2026, mas porque os dados apontam para diferenças crescentes em como os trabalhadores vivenciam a tecnologia. Líderes e algumas funções técnicas ainda descrevem a IA de forma positiva. Muitos trabalhadores da linha de frente e administrativos, não. O resultado é uma divisão no sentimento da força de trabalho que diz tanto sobre implementação e poder quanto sobre as ferramentas em si.

Segundo o texto de origem, o sentimento positivo em relação à IA nas avaliações de funcionários caiu de 81% em 2019 para 43% em meados de 2026. No mesmo período, os comentários negativos subiram para 53%. As menções à IA também dispararam, com avaliações que faziam referência a termos como “AI”, “LLM”, “GPT”, “Artificial Intelligence” ou “OpenAI” passando de menos de 0,2% das avaliações em 2019 para mais de 2,3% em maio de 2026. Só entre maio de 2025 e maio de 2026, as menções à IA aumentaram 240%.

Mais conversa, menos boa vontade

Essa combinação importa. Os funcionários não estão falando mais sobre IA apenas porque ela virou moda. Estão falando mais porque ela está aparecendo em profissões, processos de gestão e fluxos de trabalho diários. E, à medida que a exposição aumenta, o tom dessas conversas parece piorar.

O texto de origem sugere que empregos com pouquíssima exposição à IA, como açougueiros ou eletricistas, raramente mencionam o tema. Mas, assim que as ocupações atingem até um nível moderado de exposição à IA, comentários começam a aparecer em uma ampla gama de funções, independentemente de o trabalho ser visto como altamente automatizável. Isso sugere um efeito amplo no ambiente de trabalho: a IA está se tornando uma questão de gestão e processo, não apenas um recurso de software.

A análise também indica que as experiências positivas tendem a se concentrar em apenas dois padrões. O primeiro é o de funcionários em empresas que se beneficiam diretamente do boom da IA, descritas no texto de origem como “vencedoras da IA”. O segundo é o de trabalhadores que relatam que a IA remove tarefas repetitivas e lhes dá mais autonomia ou eficiência. Fora dessas condições, a insatisfação parece mais fácil de gerar do que o entusiasmo.

Glassdoor reviews from June 2025 through May 2026 show that leadership roles rate AI with the highest positive sentiment. | Image: Glassdoor
Glassdoor reviews from June 2025 through May 2026 show that leadership roles rate AI with the highest positive sentiment. | Image: Glassdoor

Gerentes e executivos veem uma IA diferente da que os funcionários veem

A divisão mais forte dos resultados é organizacional. Os cargos de liderança são descritos como os mais positivos em relação à IA, especialmente nas avaliações de junho de 2025 a maio de 2026. Os executivos são identificados como o grupo mais otimista no geral. Em contraste, várias categorias de trabalhadores registram sentimento amplamente negativo.

Os trabalhadores de sinistros de seguros estão entre os críticos mais duros, com o texto de origem dizendo que seus comentários são quase totalmente negativos. Esses funcionários frequentemente reclamam de que a gestão está impondo ferramentas com falhas aos fluxos de trabalho. Escritores, contadores e representantes de atendimento ao cliente também tendem fortemente à crítica, em alguns casos por margens de cerca de quatro para um.

Mesmo dentro da força de trabalho de tecnologia, a divisão não é uniforme. Arquitetos de software mencionam IA mais do que qualquer outra função e ainda tendem a avaliá-la positivamente. Já os engenheiros de software, cujo trabalho envolve mais diretamente escrever e revisar código, são descritos como muito mais céticos, com 57% de seus comentários relacionados à IA tendendo ao negativo.

Essa distinção é reveladora. Os trabalhadores mais próximos da implementação podem ter uma noção mais clara da incompatibilidade entre a promessa do produto e a realidade operacional. Enquanto isso, os tomadores de decisão mais seniores podem estar avaliando a IA no nível da estratégia, das expectativas dos investidores ou do potencial de produtividade, e não do atrito do dia a dia.

O sinal de alerta demográfico

O texto de origem também aponta fortes diferenças demográficas, especialmente entre mulheres mais jovens. Ele diz que apenas 21% dos comentários relacionados à IA de mulheres da Geração Z são positivos, tornando-as o grupo mais cético da análise. Isso é um sinal marcante porque sugere que a desilusão não está confinada a trabalhadores mais velhos preocupados com a disrupção tecnológica. Parte do ceticismo mais forte está aparecendo entre trabalhadores que entraram no mercado de trabalho durante a expansão da IA generativa.

Insurance claims workers and journalists are the most critical of AI, with up to 98 percent and 81 percent negative sentiment, despite having different AI exposure scores. | Image: Glassdoor
Insurance claims workers and journalists are the most critical of AI, with up to 98 percent and 81 percent negative sentiment, despite having different AI exposure scores. | Image: Glassdoor

Embora o texto fornecido não ofereça uma explicação causal completa, ele deixa difícil ignorar uma implicação mais ampla: a experiência da IA no trabalho não está sendo distribuída de forma uniforme. Função, status e posição demográfica parecem influenciar se a IA é encontrada como assistente útil, fonte de pressão ou sistema malfuncionante imposto de cima.

Para as empresas, isso deveria mudar a conversa. A questão já não é se os funcionários ouviram falar de IA ou se as lideranças querem implantá-la. A questão é se as organizações conseguem implementá-la de maneiras que os trabalhadores considerem competentes, justas e verdadeiramente úteis.

Um problema de gestão tanto quanto uma história de tecnologia

A lição mais importante da análise talvez seja que a reação negativa dos funcionários não se reduz a um simples medo de automação. O texto de origem diz explicitamente que as reclamações vão além da preocupação com perda de empregos. Os trabalhadores parecem frustrados com ferramentas com defeito, imposições de cima para baixo e implementações que adicionam atrito em vez de removê-lo.

Isso pressiona uma das narrativas mais comuns na adoção corporativa de IA: a de que a resistência reflete principalmente desconhecimento ou ansiedade diante da mudança. Se o sentimento continuar piorando conforme o uso se espalha, as empresas talvez precisem enfrentar uma explicação menos conveniente. Algumas implantações podem estar gerando custos reais no local de trabalho, visíveis para a equipe muito antes de aparecerem nos painéis executivos.

Ainda há espaço nos dados para uma trajetória mais positiva. Os funcionários respondem bem quando a IA reduz trabalho repetitivo ou quando estão em empresas que se beneficiam materialmente do boom. Mas esses caminhos para a satisfação parecem estreitos em comparação com as muitas rotas para a decepção.

Para uma tecnologia vendida como uma camada universal de produtividade, essa assimetria importa. A próxima fase da IA empresarial pode depender menos de modelos maiores e mais de as empresas conseguirem fechar a lacuna de credibilidade entre o que a gestão acha que a IA está fazendo e o que os trabalhadores dizem que ela realmente está fazendo.

  • O sentimento positivo em relação à IA nas avaliações de trabalhadores americanos caiu de 81% em 2019 para 43% em meados de 2026.
  • Os comentários negativos sobre IA subiram para 53%, enquanto as menções à IA nas avaliações aumentaram fortemente.
  • Executivos e gerentes continuam sendo os grupos mais otimistas.
  • Trabalhadores de sinistros de seguros, escritores, contadores e atendimento ao cliente estão entre os mais críticos.

Este artigo é baseado na cobertura do The Decoder. Leia o artigo original.

Originally published on the-decoder.com